quarta-feira, 25 de junho de 2014

Peça dramática Um bonde chamado desejo: uma perspectiva de leitura.





Um bonde chamado desejo foi composto por uma estrutura dialogada como as que são feitas especificamente para o Teatro, mas pela extensão, ele também pode ser considerado um Romance. Assim ele apresenta toda uma nuance diferenciada dentro da proposta do autor, que centra nos diálogos dos personagens, as passagens mais intrigantes para prender a atenção do leitor. Não só isso. Tennesse Williams conseguiu um efeito de recepção muito eficaz no leitor ao prendê-lo nas “entrelinhas” do texto, deixando no ar uma situação no entredito que cada leitor entenderá como quiser. 
As cenas do livro são muito bem descritas e envolvem muitas vezes música para dar o tom da cena, o que chega a ser encantador. Nova Orleans dos anos de 1950-1960 foi o berço do Jazz e do Blues, gêneros musicais Cult, mas que na época eram veiculados em zonas de Storyville, guetos de negros e gente da “pior espécie” do ponto de vista dos caucasianos. Um bonde chamado desejo poderia ser a história de qualquer pessoa do século XXI, na qual há casais problemáticos, jogos de aparências, amor desmedido e selvagem, onde uma mulher fantasia em ser salva da ruína em que se encontra, pronta para encontrar um homem rico que sustente tudo que ela foi um dia: rica, bonita e jovem.
É o retrato de uma sociedade decadente, personificada por Blanche DuBois, uma bela mulher que vai para a casa da irmã por não ter mais para onde ir. À beira da loucura, traumatizada e sofrida, ela entra em confronto com o mundo rude e viril do cunhado, Stanley Kowalski. Essa tensão, estabelecida entre o refinamento e a brutalidade, mostra as ruínas num mundo conflitado, sem lugar para o amor e para a sensibilidade.
As novas mudanças sociais ocorridas no pós-guerra que encontramos nessa peça foram escritas e transpostas para o cinema, e os primeiros  textos do autor (1940-50), foram aclamados pela crítica e audiência, em parte por propiciarem ao público um espetáculo de violência, moralidade, tragédia e romance em um cenário tipicamente urbano, encarnados por personagens cuja marca maior configurava-se no esforço em se apresentarem como indivíduos ou figuras representativas de aspectos peculiares da vida e da tradição norte-americana. 
Em certo sentido, Um bonde chamado Desejo pode ser descrito como a primeira mais bem sucedida incursão de Williams nos meandros da sexualidade humana (evidente na tensão dos desejos animalescos de Blanche e Stanley), um ácido retrato da desintegração pessoal. Williams consegue capturar a imaginação do público, Chamando também a atenção o fato de que enredos reforçaram perfis estereotipados e maniqueístas de mulheres em duas categorias exclusivas, seguindo uma estruturação de narrativa pautada em dois esquemas em funcionamento de uma ordem simbólica caracterizadora da figura feminina como objeto. Seja da mulher como a bela e obediente dona de casa e progenitora ou como as das prostitutas dos salões de baile. Sem dúvida, esses dois tipos clássicos encontram-se retratados em Um bonde chamado desejo sendo a doce e indefesa Stella o primeiro tipo e a desvairada Blanche o segundo. 
Enquanto Blanche pertence ao universo das grandes e decadentes plantações sulistas e atua como um veículo no qual o passado norte-americano de século XIX é revivido, resistindo assim ao seu fatídico e inevitável desaparecimento, Stanley, por sua vez, encapsula a imagem da nova América, do imigrante e do homem da cidade. No espaço da narrativa, é ele aquele que, dentro do seu grupo, encontra-se dotado das qualidades ou habilidades necessárias para vencer no mundo pós-industrializado, no comércio, em um universo reconfigurado pela máquina, pelos carros e locomotivas.
Nesse contexto, ele assevera sua masculinidade e sua falta de refinamento; e, onde não pode dominar sexualmente, ele recorre à violência. Certamente, sua figura representa muito mais a face aceita do típico macho da selva urbana retratado pelas obras de Hollywood nos filmes de gangster nas décadas de 1930.
Frequentemente nos deparamos com personagens femininos agarrando-se tenazmente aos seus sonhos de realização perdidos — Blanche e Scarlet O’Hara são típicos exemplos desta perda. Seus sonhos nunca são concretizados no plano da realidade, exceto pelas fantasias dos romances lidos ou das operetas assistidas, posto que a propulsão do materialismo norte americano destruiu todas as expectativas e sonhos, deixando o homem abandonado em um mundo sem sensibilidade. 
Um bonde chamado desejo recria uma atmosfera de conflitos entre os valores tradicionais e uma nova e dinâmica ordem social: um mundo que fora outrora assentado por elementos como a elegância, a beleza e o floreio do universo burguês do século XIX e que gradualmente desaparece diante da truculenta agressividade materialista da sociedade industrial moderna. Na estrutura narrativa da peça, esse confronto entre duas conjunturas histórico-sociais distintas concentra-se em uma arena de batalha travada pelos personagens Blanche e Stanley. O verniz que reveste Blanche é evidentemente o da decadência do passado aristocrata; seu único meio de sobrevivência em mundo moderno e dinâmico é agarrando-se a um outro ser e  sugando-lhe sua energia física, emocional, ou mesmo material, como um parasito decorativo. Stanley, por sua vez, é constituído de uma energia viril e agressiva, características outrora desprezadas e sublimadas pelo cavalheirismo cortês típico do universo de Belle Reve. Evidentemente, a dramatização desse confronto ocorre em diversas esferas simbólicas, mas é, sobre tudo, em termos sexuais que o passado aristocrata associa-se à imagem da fragilidade feminina confrontando-se com a modernidade representada pela masculinidade ao mesmo tempo carismática e brutal do turbulento confronto entre dois mundos díspares, representado pelas duas personagens, vaticina a vitória da modernidade sobre a tradição aristocrática na forma simbólica em que Blanche sucumbe à força de Stanley no final da peça. 
Ao longo da leitura, testemunhamos uma sucessão de cenas marcadas por uma acirrada disputa entre os protagonistas pelo controle do espaço. A disparidade e o consequente embate entre ambos são sinalizados já na primeira cena na qual Blanche entra elegantemente vestida com “uma valise branca, corpo frágil, exibindo um colar e brincos de pérolas, calcando luvas brancas e um chapéu que, levemente, esconde seu rosto” (WILLIAMS, 1984, p. 15). Seja por meio de sua vestimenta e adereços ou em seu delicado modo de ser portar, Blanche demonstra um imenso descompasso com o novo lugar e situação, não sabendo como agir. Então ela se dá conta de que não se encontra mais em seu território. É somente com a chegada de sua irmã Stella, visivelmente mais adaptada àquele meio, que Blanche sente-se um pouco mais confortável, pois encontra na irmã um elo que conecta esses dois mundos diametralmente opostos. 
Desse modo, o contra-ataque de Blanche à hostilidade do ambiente realista que a tudo devora, tornando a adaptação ao meio a única e exclusiva via de sobrevivência é estabelecido logo na primeira cena em que reafirma seu poder por meio de símbolos aristocráticos como a força do nome e da tradição familiar sobre sua irmã Stella, na tentativa de restabelecer uma ordem social aristocrática e romântica, recobrando assim um status há tempos perdido. Várias são as passagens ilustrativas acerca desse embate: Blanche criticando a aparência de Stella; sua  desaprovação ao novo estilo de vida da irmã em Nova Orleans junto com o marido Stanley, visivelmente um homem de uma classe social inferior à delas, segundo ela mesma expressa.
 Blanche despreza Stanley por considerá-lo um homem “ordinário”, diferente do tipo a qual ela e sua irmã cresceram sendo cortejadas. A rejeição e desprezo da protagonista, além e seu esforço para impor-se naquele ambiente, podem ser interpretados como um evidente enfrentamento dos valores tradicionais diante da nova América que se sobrepõe a um passado que resiste ao desaparecimento. 
Por fim, a simbologia do irreconciliável confronto entre passado e presente, tradição e modernidade das figuras de Stanley e Blanche  encontra na figura de Stella uma via de reconciliação entre ambos. É através dela que a tradição do passado se molda a uma nova configuração presente a fim de garantir a sobrevivência. Mais precisamente, Williams representa como sendo o  filho que ela e Stanley geram, um ponto nodal para produzir uma continuidade na ruptura, mediante a tensão antagônica dos opostos que  permeia toda a história.

Impressões do filme clássico Uma rua chamada pecado


Título no Brasil: Uma Rua Chamada Pecado           Título Original: A Streetcar Named Desire 

Ano de Lançamento: 1951
Gênero Drama 
País de Origem EUA
Duração122 minutos
Direção Elia Kazan
Estúdio/Distrib. Warner Home Vídeo


Blanche DuBois, (Vivien Leigh) é uma mulher frágil e neurótica,  que vai visitar sua irmã grávida, em Nova Orleans, em busca de um lugar que possa chamar de seu, já que, após seduzir um jovem de 17 anos, ela foi expulsa da escola onde lecionava Inglês, na cidade do Mississipi. Sua chegada afetará fortemente a vida da sua irmã, do seu cunhado e a sua própria vida.
A década de 1950 foi uma das mais conservadoras e censuradas da história do cinema americano, exigindo assim um talento a mais daqueles cineastas que procuravam passar através de suas obras algo além do permitido. Alguns batiam de frente com as produtoras e tinham seus filmes proibidos e retidos; outros concordavam com edições finais rígidas, um processo que geralmente “desfigurava” por completo a ideia inicial do trabalho; e havia também aqueles que adaptavam suas histórias com o objetivo de driblar a censura, que é o caso de Elia Kazan e seu antológico Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951).
A peça original escrita por Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo, foi um sucesso de crítica e público nos palcos da Broadway e o texto foi premiado com o prêmio Pulitzer de Literatura. O grande desafio era encaixar essa história dentro dos moldes aceitáveis de Hollywood, já que seu tema principal girava em torno das mais diversas facetas do desejo, em especial o feminino. Até o momento, nenhum filme tivera coragem e ousadia de colocar em xeque um assunto tão delicado como a luxúria e as fantasias das mulheres. O mundo ainda era muito fixado em fundamentos machistas, e além de tudo havia no meio da trama um personagem de conotação gay – O Mitch, colega de trabalho de Stanley e pretendente de Blanche também em sua solteirice exacerbada soa também como um personagem Gay, além do suicida marido de Blanche denotado somente por sua "fraqueza" o que deixa algo nesse sentido implícito.
O filme é repleto de personagens dúbios, que carregam em sua essência diversas nuances, mas todas muito bem disfarçadas, a fim de não despertar nenhuma atenção indevida. Cabia ao público enxergar isso por trás da história de Blanche DuBois, e sua temporada na casa da irmã, Stella Kowalski (Kim Hunter), e de seu cunhado, Stanley (Marlon Brando).  Dividida entre a repulsa pela personalidade bruta de Stanley e pela tensão sexual que se estabelece entre os dois, Blanche começa a entrar em um processo enlouquecedor ao relembrar do seu passado nebuloso e logo seus verdadeiros segredos começam a vir à tona.   Ao analisarmos a composição de seus respectivos papéis, podemos começar pela Blanche. Em uma das atuações mais certeiras e calculadas do cinema, Vivien Leigh encarna Blanche DuBois com uma precisão de mestre. Herdeira de um refinamento aristocrático decadente, a personagem principal é um verdadeiro mistério, por mais que a câmera se foque em centralizá-la na maior parte do tempo. Atormentada pelo seu passado nunca plenamente revelado a nós espectadores, ela se vê diante de uma situação delicada ao sentir um misto de atração e repulsão por seu cunhado.  Seu lado racional o vê como um “ordinário”, mas seu desejo de mulher o anseia descontroladamente, o que só colabora para suas lembranças da época em que era casada - com um jovem que cometera suicídio por, segundo ela, tê-lo desprezado -  virem à tona. Gesticulando sempre de maneira excessivamente teatralizada e exagerada, perto do caricatural, Vivien Leigh consegue assim captar a essência de Blanche, uma mulher que ainda vive de aparências e que possui um lado emocional extremamente fragilizado. De certa forma chega a ironizar a superficialidade tão costumeira das atuações forçadas nos filmes americanos mais antigos, causando contraste com o que Marlon Brando propunha por meio de sua encenação como Stanley Kowalski.
Blanche se culpa pelo suicídio do jovem e demonstra que tem uma acentuada “queda” por adolescentes. Neurótica pela beleza da juventude perdida e pelo uso abusivo de álcool, quando questionada sobre ser uma mulher “direita” ela diz, "o que é isso?, O coração deveria ser o senhor da vida de uma mulher e não ser 'direita'". Assim como Stanley espanta Blanche com sua maneira de ser, Brando pasmou todos seus colegas de profissão com sua interpretação marcante, sendo alçado rapidamente ao Olimpo dos atores mais cobiçados e requisitados do cinema americano. Sua roupa colada ao corpo pelo suor, sua presença como macho alfa da casa e o desejo faiscante em seu olhar representam nada mais do que a personificação dos desejos femininos mais selvagens, que ganham voz na pele de Stella, a esposa que não liga de ser maltratada pelo marido pelo qual nutre uma paixão cega e irracional, que faz com que ela aceite ser agredida e retome ao seu lugar de esposa apaixonada. Depois disso, Hollywood nunca mais foi a mesma. A referencia ao desejo está explícito na obra cinematográfica, pois para poder chegar à casa de sua irmã, Blanche precisa tomar um bonde chamado Desejo e logo depois um chamado Cemitério – a grande ambiguidade crítica de toda a obra. Afinal, é o tal transporte que tira Blanche de sua condição de mentiras e aparências para levá-la ao submundo da pobreza, ao som de jazz, que é Nova Orleans (cenário e gênero musical pouquíssimo explorado pelo cinema da época). O desejo irracional que a conduz rumo à perdição.  É também esse o mesmo desejo que Stella nutre pelo marido, e que Stanley nutre pelas duas; o mesmo que leva o inocente Mitch (Karl Malden) a se apaixonar cegamente pelo mundo de ilusões que Blanche simboliza; o mesmo que fez no passado o marido dela se suicidar, depois de se descobrir homossexual, por isso ela o chama de fraco e diz que o despreza, (fato que ficou cuidadosamente implícito no processo de transposição da peça para as telonas).
 A força desse sentimento é tanta que loucura, mentiras, temores, pecados e tensão sexual explodem na tela a todo o momento por meio de diálogos riquíssimos e atuações memoráveis. A trilha sonora regada a jazz é intensificada conforme Blanche vai piorando de sua saúde mental (como se entrasse na mente da personagem e reverberasse lá dentro com fúria), assim como vai desaparecendo sutilmente quando a personagem se recupera em momentos de lucidez. A iluminação se reveza entre ofuscante e esmaecida, também de maneira proposital, de acordo com a situação. O aspecto teatralizado amplia a força dos diálogos e das atuações, e a fotografia em preto e branco é certeira. Nada escapa à lente do cineasta.  Por fim Blanche e Stanley levam a cabo seus desejos um pelo outro, o que agrava de maneira terrível as psicoses da personagem de ver mortos e ouvir músicas, dentre outros.
Quando Stanley se ver sozinho na casa com Blanche, depois de deixar Stella na maternidade para dar a luz a criança, ele finalmente encurrala Blanche e consuma os desejos de ambos, veementes desde o inicio do filme. Depois disso, a saúde mental de Blanche piora consideravelmente e ela se converte em uma verdadeira louca de fato. Sem outra alternativa, com um bebê nos braços, Stella cede a pressão de Stanley de “livrar-se” da irmã internando-a num manicômio, cena muitíssimo forte do final, em que Blanche declara “sempre dependi da bondade de estranhos” já que da sua irmã ela não encontrou o amor que precisava. Stella pega a criança e diz que não volta mais para Stanley.... de uma coisa quero crer, a relação dos dois jamais voltou a ser a mesma. 

Resenha impressionista sobre o filme XXY



FICHA TÉCNICA Título Original: XXY Título no Brasil: XXY Direção: Lucía Puenzo Gênero: Drama Duração: 91 minutos Ano de Lançamento: 2007 Origem: Argentina / França / Espanha.

Alex (Inés Efron) nasceu com características sexuais comuns aos dois gêneros e possuía pênis e vagina. Os pais resolveram deixar que o tempo e a própria Alex (parece que sempre optaram por ele (a) ser mulher), decidisse a escolha da sua própria sexualidade e fugiram das intervenções cirúrgicas que insistiam os médicos que desejavam castrá-la enquanto bebê. Saíram então da Argentina e foram para um vilarejo pesqueiro na costa do Uruguai.  Principalmente o pai de Alex, que a considerou perfeita, independente da opinião das pessoas,  estando convencido de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo de Alex sem considerar seu futuro biológico.
Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal, que leva consigo o filho adolescente, Álvaro. É quando Alex, que está com 15 anos, sente-se atraída pelo jovem, inclusive lhe propondo que transem coisa que ele de pronto não responde. 
O Filme XXY expõe o assunto da intersexualidade e provoca o surgimento de inúmeras questões  que vão desde a análise da inserção da figura feminina na comunidade, bem como as tênues fronteiras entre feminilidade e masculinidade, identidade sexual (Alex decide não tomar os corticoides e assim se virilizar) até os impactos que a jovem enfrenta, devido a sua condição biológica na sociedade, ao ser exposta pelo melhor amigo e por pouco não sofrer um estupro coletivo por parte de rapazes do lugarejo, curiosos sobre a dupla condição sexual da moça.
O médico, pai de Álvaro é convidado pela mãe de Alex para conhecê-la e ver a possibilidade de castrá-la, seu interesse por Alex é puramente clínico. O temor dessa mãe é que a filha se virilize e não se proponha a ser uma mulher, o que seria uma condição mais cômoda para a família. No meio desse ínterim, Alex se relaciona com Álvaro, não como fêmea e sim como macho e seu pai passa a entender que ela jamais será uma mulher no sentido “normatizado” de ser, pois  ele  percebe que talvez a “filha”, seja no fundo um filho. É óbvio que o pai desaprova essa ideia de castração e no meio do tormento ele busca a opinião de outra pessoa, noticiado no jornal, que foi castrado, viveu como mulher até que, ao não se identificar como homem passou a reverter o processo de feminilização e passou a definir-se como homem e assim o conseguiu, inclusive configurando uma família do ponto de vista tradicional. Mas ele tranquiliza o pai de Alex que ele tomou a decisão certa não deixando a filha nas mães dos normatizadores.
A cena mais incrível que achei foi a que ela se vê no espelho, tentando entender  seus desejos sexuais e o que os pais querem para ela. Esse olhar feminino, tentando se encontrar, atenta para a questão dos gêneros sexuais e da ambiguidade que há no feminino/masculino nos oferece um denso contato com a realidade das pessoas que tem que se decidir que sexo querem ter, e o  porquê  de terem  que fazer essa escolha, quase que obrigadas a decidir-se para serem aceitas no meio social. XXY não é só uma discussão sobre intersexualidade, mas uma discussão sobre respeito e preconceito. E no final, a escolha de Alex é ainda mais lúcida do que qualquer um esperava, pois ela sente o apoio incondicional de seu pai para seguir sendo o que é.
Dura será a realidade de Álvaro, com um pai que o despreza por não ter seus talentos de cirurgião e de assumir sua homossexualidade, prontamente exposta por Alex, já que o pai já o deixou certo de que isso seria o pior para sua reputação. Para Álvaro, Alex era o sonho de configuração daquilo que seria perfeito para sua realização afetiva e sexual, porém para Alex a realização plena estaria mais relacionada ao emocional do que  ao sexual. Ela compreende os motivos de Álvaro, mas ela não quer adequar-se e sim romper com o estabelecido, por isso de livre e espontânea vontade expõe sua “deformidade” para ele quando se despedem no cais. Ela escolheu o mais difícil, ser ela mesma, independente das pessoas a condenarem. 
 

Resenha impressionista do filme TRANSAMÉRICA



FICHA TÉCNICA
Título: Transamérica Ano: 2005 Gênero: Comédia Dramática
 Direção: Duncan Tucker Roteiro: Duncan Tucker
 Elenco: Burt Young, Elizabeth Peña, Felicity Huffman, Fionnula Flanagan, Graham Greene, Kevin Zegers Produção: Linda Moran, Rene Bastian, Sebastian Dungan Fotografia: Stephen Kazmierski Trilha Sonora: David Mansfield
Duração: 103 min.




O filme conta a historia de Bree – diminutivo de Sabrina - , (Felicity Huffman), uma Transexual que está contando os dias para realizar o sonho de fazer sua cirurgia de mudança de sexo, quando descobre que tem um filho. O garoto, Toby (Kevin Zegers), é agora um adolescente que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. O menino vem vivenciando uma série de complicações em sua trajetória e se encontra em uma instituição para menores infratores, o mesmo se dedicava a pequenos furtos e se prostituía. A instituição entra em contato com Bree - outrora Stanley - para assumir  a custódia do garoto de 17 anos, já que sua mãe tinha morrido. Ao saber dos problemas do garoto, Bree fala a sua psicóloga que só quer conhecê-lo depois que fizer a operação, porém a médica discorda e manda-a resolver essa questão da paternidade para garantir que ela não mudará de ideia depois que realizar a cirurgia.
Diante das circunstâncias, Bree decide ir ao encontro do garoto que a confunde com uma missionária religiosa. Sem alternativa, Bree tenta reestabelecer os laços familiares - que conta com um padrasto que o abusava sexualmente e uma vizinha negra que o ajudava na infância, ela percebe que será impossível deixa-lo nesse ambiente hostil. Depois de descobrir os motivos que fizeram o jovem afastar-se do convívio familiar depois da morte da mãe, os dois passam a viajar juntos e a se
conhecerem. O interessante é que Bree passa a tratar Toby como sendo uma “mãe”, valorizando-o e estimulando-o a tentar seguir com seus sonhos, se desvinculando das drogas e da prostituição.  
Nessa viagem de carro Bree sai para urinar e Toby descobre que ela não era “uma mulher” de verdade. Passa a tratá-la com frieza até explodir que ela era uma aberração. A personagem se sente totalmente ofendida e ferida na sua dignidade de ser considerada uma aberração pelo seu “transtorno de Gênero”, termo da psiquiatria que atesta o gênero no corpo errado, ou seja, aqueles que não sentem o desejo de cumprir o seu destino biológico determinado. Percebemos as dificuldades da personagem  em vestir-se, de manter o sistema hormonal controlado por sintéticos, mas Bree é de uma humanidade – no bom sentido -  maravilhosa. 
Ela procura estabelecer os vínculos com o rapaz pelos motivos certos. Quando eles chegam ao lar da família de Bree, que assume a paternidade de Toby perante seus pais e irmã e demonstra que deseja que o menino seja respeitado e valorizado, mesmo sem considerar a possibilidade de revelar que ele é seu pai biológico, podemos perceber as relações tumultuadas com a dominadora matriarca que se nega a aceitar que seu filho faça a tal cirurgia, para se tornar aquilo que Bree afirma ser o que sempre foi. Uma alma feminina, delicada, sensível, sempre disposta superar os males da vida e reconsiderar sua trajetória. A aceitação do pai de Bree, a reticência da irmã e a negação chantagista da mãe dessa trans foi uma surpresa para explicitar as   relações de amor e dor no seio dessa família de classe média alta.
Durante as conversas na casa da mãe de Bree, ela convida Toby para ir morar com ela, deixa isso ao encargo dele escolher. No entanto Toby busca oferecer-lhe aquilo que ele diz que “melhor sabe fazer” considerando o interesse de Bree como sendo de cunho sexual. Diante disso ela decide revelar-lhe a verdade de ser o pai dele, antes de assumir-se trans. O garoto sente o choque, pois na sua ilusão de criança, o pai é o seu herói esperado, que vai salvá-lo de seus dias difíceis, além de revelar-se o índio que ele esperava. Ao invés de um pai, uma mãe, ao invés de um índio, um descendente de judeu, não a toa o menino foge novamente. Volta-se para o cinema pornô - Toby dizia a Bree que quando fosse conhecer o pai, teria feito um filme e compraria umas roupas caras para impressionar -  mas a semente do amor e do respeito que Bree plantou, germinou...  lindo o final, pois mesmo toby dizendo que não o tinha perdoado, a entrega daquele chapéu foi um gesto simbólico e forte dos laços fortes que somente o amor e o respeito mútuo podem construir e o que mais temos de bom na humanidade, advindo daqueles que pagam o preço para serem quem verdadeiramente são.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado

Uma palestra que explica porque usar nossa imaginação e providenciar para que outros utilizem as suas, sendo uma obrigação de todos os cidadãos

pelo The Guardian, em 15/10/2013
Neil Gaiman
“Temos a obrigação de imaginar…” Neil Gaiman dá uma palestra anual à Reading Agency sobre o futuro da leitura e das bibliotecas. Fotografia: Robyn Mayes.
 
 
É importante para as pessoas dizerem de que lado estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.
E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.
Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.
E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.
E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.
Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças entre 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.
Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem ficção.
A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é como uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a ideia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.
A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.
Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, R. L. Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.
É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.
Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.
Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler R. L. Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).
E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.
Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos obcecados consigo mesmos.Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto: O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.
Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu.
Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.
Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades, conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.
Como J. R. R. Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.
 
 
A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo
A ilustração de Tolkien da casa de Bilbo, Bag End. Foto: HarperCollins
 
Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.
Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.
Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.
Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.
Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.
Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.
 
Menino lendo em sua escola
Foto: Alamy
 
Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.
Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à e-books, e áudio-livros e DVDs e conteúdo na web.
Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.
Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.
As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.
De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Ingaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.
Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.
Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.
Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.
Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.
Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.
Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.
Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.
Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.
Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.
Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.
Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.
Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.
Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.
Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.
 
Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.