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quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Intrusa


Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas. Quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhosos me era teu amor do que o amor das mulheres.
II Samuel, 1-26

Dizem (o que é improvável) que a história foi contada por Eduardo, o mais moço dos Nilsen, no velório de Cristiano, o mais velho, que morreu de morte natural, cerca de mil oitocentos e noventa e tantos, em Morón. O fato é que alguém a ouviu de alguém, durante essa longa noite perdida, entre um e outro mate e a repetiu a Santiago Dabove, que a contou a mim. Anos depois, em Turdera, onde a história acontecera, ouvi-a novamente. A segunda versão, um pouco mais longa, confirmava em suam a de Santiago, com as pequenas variações e divergências próprias do caso. Escrevo-a agora porque, se não me engano, ela é uma imagem breve e trágica da índole dos antigos ribeirinhos. Farei isto com probidade, mas já prevejo que cederei à tentação literária de acentuar ou acrescentar algum detalhe.
Em Turdera eram conhecidos como os Nilsen. O vigário me disse que seu antecessor se lembrava, com alguma surpresa, de ter visto em casa dessa gente uma velha Bíblia de capa preta com caracteres góticos; nas últimas páginas chegou a ver nomes e datas escritos a mão. Era o único livro existente na casa. A azarada crônica dos Nilsen perdeu-se como tudo o mais. O casarão, que já não existe, era de tijolo sem reboco; no vestíbulo via-se um pátio de ladrilhos coloridos e outro de terra batida. Afinal de contas, poucas pessoas conseguiram entrar ali; os Nilsen defendiam sua solidão. Nos quartos maltratados dormiam em catres; só tinham luxo com o cavalo, os instrumentos de lavoura, a adaga de lâmina curta e o espalhafato dos sábados com bebidas e brigas. Sei que eram altos e de cabelos avermelhados. A Dinamarca e a Irlanda, das quais nunca tinham ouvido falar circulavam no sangue desses dois crioulos. O bairro temia os vermelhos; e não é impossível que tivessem alguma morte nas costas. Ombro a ombro brigaram certa vez com a polícia. Diz-se que o mais moço brigou com Juan Iberra e não fez feio. Isso, segundo os entendidos, já era muita coisa.
Foram tropeiros, magarefes, ladrões de gado e até mesmo trapaceiros. Tinham fama de avarentos, salvo quando a bebida e o jogo os tornavam generosos. Nada se sabe sobre seus parentes e de onde vieram. Tinham uma carroça e uma junta de bois.
Fisicamente eram diferentes do compadrio cujo apelido de foragido foi dado à Costa Brava. Isto, e o mais que ignoramos, ajuda a compreender porque eram tão unidos. Inimizar-se com um, era contar com dois inimigos.
Os Nilsen eram estouvados, mas suas aventuras amorosas não tinham passado até então da sala de visitas ou então das casas de tolerância. Não faltaram, pois, comentários quando Cristiano levou Juliana Burgos para viver com ele. É verdade que assim ganhavam uma criada, mas também não é menos certo que a cumulou de bugigangas e que a exibia nas festas. Nas pobres festas de pequenos bordéis onde os requebros e a lascívia estavam proibidos e onde se dançava ainda, com muita luz. Juliana era morena e tinha olhos rasgados; bastava que alguém a olhasse para que sorrisse. Num bairro modesto, onde o trabalho e o descaso gastam as mulheres, não era malparecida.
A princípio Eduardo os acompanhava. Depois viajou a Arrecifes para um negócio qualquer; na sua volta, levou para casa uma moça, que encontrara no caminho, mas com poucos dias mandou-a embora. Tornou-se mais carrancudo; embriagava-se sozinho no armazém e não se dava com ninguém Estava apaixonado pela mulher de Cristiano. No bairro, que talvez tenha sabido disto antes dele, previram com uma alegria perversa a rivalidade latente entre os dois irmãos.
Uma noite ao voltar tarde do papo na esquina, Eduardo viu o cavalo de Cristiano amarrado a cerca. No pátio, o mais velho o estava esperando todo ataviado. A mulher ia e vinha com o mate na mão. Cristiano disse a Eduardo:
- vou para uma farra na casa de farias. Aí tens a Juliana; se quiseres, usa-a.
O tom da voz era entre mandão e cordial. Eduardo ficou a olhá-lo durante um certo tempo; não sabia o que fazer. Cristiano levantou-se, despediu-se de Eduardo, mas não de Juliana, que erra apenas uma coisa, montou a cavalo e saiu trotando, sem pressa.
A partir daquela noite a mulher foi compartilhada por eles. Ninguém jamais saberá os pormenores dessa sórdida união que ultrajava o decoro do bairro. O arranjo foi bem por umas semanas, mas não podia durar. Entre eles os irmãos, não pronunciavam o nome de Juliana, nem sequer para chamá-la, mas procuravam, e encontravam, razões para não se por de acordo. Discutiam, por exemplo, a venda de uns couros, mas na verdade tratava-se de outra coisa. Cristiano costumava levantar a voz e Eduardo calava-se. Sem que soubessem, estavam com ciúmes um do outro. Nessas duras redondezas um homem não dizia, nem sequer para si próprio, que se incomodava por causa de uma mulher além do desejo e da posse, mas os dois estavam apaixonados. Isto, de certo modo, os humilhava.
Uma tarde, na praça de Lomas, Eduardo cruzou com Juan Iberra, que o felicitou pelo arranjo perfeito. Foi então, creio, que Eduardo o insultou. Ninguém, na frente dele, ia levar Cristiano ao ridículo.
A mulher atendia aos dois com uma submissão animal; mas não podia esconder uma certa preferência pelo mais moço, que não havia recusado a participação, mas também não a dispusera.
Um dia mandaram que Juliana levasse duas cadeiras para o pátio e que sumisse dali porque precisavam falar um com o outro. Ela esperava uma longa conversa e deitou-se para dormir a sesta, mas dentro de pouco tempo acordaram-na. Mandaram que enchesse uma bolsa com tudo o que tinha, sem esquecer o rosário de vidro e a cruzinha que sua mãe lhe deixara. Sem nada explicar-lhe, mandaram que ela subisse na carroça e empreenderam uma silenciosa e enfadonha viagem. Havia chovido; os caminhos estavam enlameados e devia ser três da madrugada quando chegaram a Morón. Aí venderam-na a dona do bordel. Tudo já havia sido combinado; Cristiano recebeu o dinheiro e depois dividiu-o com o outro.
Em Turdera, os Nilsen, então enredados na teia (que era também uma rotina) daquele monstruoso amor, tentaram retornar a antiga vida. Voltaram à batota, às rinhas de galo, às farras. Talvez tenham acreditado, uma vez ou outra, que estavam salvos, mas cada qual por seu lado, costumavam ausentar-se sem justificativas, ou até muito justificadamente. Pouco antes do fim do ano o mais moço disse que tinha o que fazer na Capital. Cristiano foi para Morón; na cerca da casa que conhecemos reconheceu o cavalo de Eduardo. Entrou. Lá dentro estava o outro, esperando sua vez. Parece que Cristiano lhe disse:
- Continuando assim vamos mais é cansar os cavalos. É melhor que a tenhamos ao alcance de nossa mão.
Falou com a patroa, tirou umas moedas do cinto, e levaram-na. Juliana ia com Cristiano. Eduardo esporeou o malhado para não vê-los.
Voltaram à mesma vida que já se contou. A infame solução fracassara. Os dois haviam cedido à tentação de fazer trapaça. Caim andava por ali, mas o amor dos Nilsen era muito grande – quem sabe que durezas e que perigos haviam compartilhado! – e preferiram descarregar sua exasperação sobre os outros. Com um desconhecido, com os cachorros, com Juliana que havia trazido a discórdia.
O mês de março estava chegando ao fim e o calor não diminuía. Um domingo (nos domingos as pessoas costumam recolher-se cedo) Eduardo, que voltava do armazém, viu que Cristiano atrelava os bois. Cristiano lhe disse:
- Vem, temos que deixar uns couros no Pardo. Já está tudo carregado, vamos aproveitar a fresca.
O comércio de pardo ficava, creio, mais ao sul. Tomaram pelo Caminho das Tropas e depois por um desvio. O campo ia crescendo com a noite.
Contornaram um restolhal; Cristiano jogou fora o cigarro que acendera e disse sem pressa:
- Vamos trabalhar, meu irmão. Depois os carcarás nos ajudarão. Eu a matei hoje. Que fique aqui com suas bugigangas. Já não causará mais dissabores.
Abraçaram-se, quase chorando. Agora estavam ligados por outro laço: a mulher tristemente sacrificada e a obrigação de esquecê-la.

Referências: BORGES, Jorge Luís. O informe de Brodie, Porto Alegre: Globo,1976, p. 09-16.





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Impressões de leitura da obra O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde.




Li esse livro na adolescência e agora ao relê-lo, talvez pela idade e experiência vivida, pude compreender diversas coisas que naqueles dias não consegui atinar direito. A história é muito densa e o lado psicológico do leitor, pelo menos o meu, ficou cativado desde o inicio da narrativa. Dorian era um rapaz atencioso, gracioso e afável, e com um caráter sutil e cativante. Tamanha era sua simpatia e beleza que acabou fascinando o pintor Basil Hallward. Sua adoração pelo jovem foi tamanha que ele resolveu imortalizá-lo em uma de suas pinturas. Segundo o próprio artista, o retrato de Dorian seria sua obra prima, seu clímax como artista. Ele tinha por Dorian um sentimento que sobrepujava qualquer interesse financeiro, era uma espécie de idolatria e amor. Basil tecia tantos elogios e falava tanto sobre Dorian que acabou deixando Lorde Henry intrigado sobre quem seria esse extraordinário modelo de Basil. Na leitura fica óbvio que tudo o que Basil sente por Dorian era tão profundo e arrebatador que não tinha definição, percebe-se pelo teor de suas palavras, sua maneira de falar, seus anseios, ele ficou arrebatado, pintava com loucura devotada na presença do lindo Dorian, sentia por ele um amor que transbordava da sua obra. Por isso ele demonstra que não quer expor o quadro, pelo mesmo ter muito de si para revelar. Então Dorian é apresentado a Henry, que com sua astúcia logo adquire um interesse pelo rapaz e sua formosura. Contudo a sua natureza hedonista e a capacidade de persuasão acabaram por despertar os desejos concupiscentes de Dorian, maculando sua natureza bela e infantil. Dorian passa a ver o lado fútil da vida e deseja ardentemente que a sua beleza física dure eternamente.
Certamente não podia deixar de apreciar o belo e gracioso jovem que via a sua frente.[...] As mãos mesmo, suas mãos frescas e brancas, lembrando flores, possuíam um encanto curioso. Tal como a voz, elas pareciam musicais, pareciam ter uma linguagem particular. Atemorizava-se e era vergonhoso temer...” [fluxo de consciência de Dorian Gray, p. 30)
Enquanto Basil apresenta o quadro finalizado e ele mesmo se reconhece como um ser seráfico nele, Dorian faz uma prece com todo o ímpeto, expondo o desejo de nunca ficar velho e feio, de nunca perder a beleza etérea e tocante que tanto lhe faz ficar famoso e bem aceito aos olhos da sociedade que agora ele pertence. Lorde Henry, torna-se amigo de Dorian e com os conselhos e suas ideias acaba seduzindo e conduzindo o moço a um caminho sem volta. Acrescento aqui que isso foi possível porque o próprio Dorian tinha represado anseios referentes aos seus impulsos sexuais e o Henry, sabendo disso, não se envergonha de utilizar isso em benefício próprio.
somos punidos pelo que negamos. Cada impulso que tentamos sufocar persevera em nosso íntimo e nos intoxica. O corpo peca, a principio e se satisfaz com o pecado, porque a ação é um modo de purificação. [...] só quando cedemos a tentação, nos desembaraçamos dela. Procure resistir e sua alma há de aspirar doentiamente a tudo do que quiser preservar-se, com a agravação do desejo por aquilo que todas as leis monstruosas tornaram ilegal e monstruoso.[...] O senhor Mr. Gray, com a sua candente mocidade e a sua cândida infância, há de ter tido paixões que o terão espantado, pensamentos que o encheram de terror, dias de sonho e noites de sonho que, simplesmente recordadas, bastarão para fazer subir o rubor ás faces... (Fala de Lorde Henry, p. 28)
Nos tempos que se seguem ao estreitamento da amizade de Dorian e Henry, que lhe apresenta a toda a sorte de deleites e excessos, Dorian Gray perde completamente a noção da moral que permeia as relações sociais da Inglaterra do fim do XIX e aquele jovem puro com índole quase infantil é submergido numa poça de lama mundana.
Ele tentaria dominá-lo, como aliás , já havia feito. Faria seu esse ser maravilhoso. Havia qualquer coisa de fascinante nesse filho de Amor e de Morte.( fluxo de consciência de Lorde Henry., p. 44)
Esse novo mundo que Dorian frequenta, numa noite de inquietação, passeando pela parte suburbana e marginal da cidade e num teatro vagabundo ele conhece Sibyl Vane, uma atriz de terceira categoria que interpreta algumas personagens famosas. Ele se apaixona por ela, sua atuação o enfeitiça. Ele se impressiona tanto com a moça que por noites seguidas vai vê-la nas apresentações, sentindo-se o mais apaixonado dos homens. Ele cria coragem e se declara para Sibyl e o seu amor é correspondido. Perdido de paixão do que acredita ser o seu primeiro amor, fica noivo da jovem. Mas Dorian busca sempre a aprovação das pessoas. Ele precisa que a garota e seus amigos (principalmente Lorde Henry) se conheçam e que eles a possam a aprovar enquanto atriz. Porém, a situação sai do controle quando ele leva os amigos para vê-la representar e justo nesta noite, muito nervosa, ela atua bem abaixo de seu talento habitual, justamente porque se encontrava afetada pelo amor que sentia por ele. Os amigos saem do teatro e Dorian decepcionado com a noiva a trata de forma cruel, devastadora. Wilde descreve com tanta maestria todo o fervor das palavras de Dorian que arranca de qualquer mulher, um ódio profundo e a vontade de revidar ao tratamento desumano a que é submetida Sybil. A derrota completa de Dorian se dá no momento em que, outra vez, se deixa levar pelos argumentos absurdos de Henry e sem qualquer sentimento de remorso, trata o assunto da morte de Sibyl como se fosse mais uma encenação teatral. A moça arrasada com tudo que ouve de Dorian, bem como seu completo desprezo, se suicida.
"Você foi a Ópera?”, repediu Hallward, falando devagar, com um traço tenso de dor na voz. “Você foi a Ópera enquanto Sibyl Vane jazia morta em um aposento sórdido? Você consegue falar sobre o encantamento de outras mulheres e sobre Patti ter cantado divinamente antes que a mulher que você amava tivesse ao menos a paz do túmulo para dormir? Ora, homem, o pequeno e pálido cadáver de Sibyl há de enfrentar os piores horrores. (P. 128)
A partir desse tempo da narrativa, ele que já havia percebido mudanças no retrato pintado por Basil, percebe que o quadro começa assumir fisionomia cruel e pestilenta, ou melhor, a cada mudança da personalidade de Dorian, o quadro se deteriorava. Ele mesmo em si, está cada vez mais viçoso e esplêndido, participa de situações das mais devassas, frequenta lugares sombrios e proibidos para um jovem cavaleiro como ele e um lugar específico das docas onde consome ópio.O tempo parou para ele, não envelhecia e nenhuma ruga manchava seu rosto magnífico, mas o quadro escondido por ele mesmo numa saleta de sua mansão da qual só ele tinha a chave, exalava o odor pútrido de todas as maldades e loucuras cometidas por Gray. Para Dorian o importante a partir daquele momento é que mesmo cometendo todos os pecados e indecências inimagináveis, sua aparência continuaria sendo a do rapaz lindo e imaculado, enquanto o quadro assumiria toda a podridão de sua alma. Ele se torna ainda mais cruel após ler um livro enviado por Henry e o mundo passa a ser um parque de diversões e de devassidão. Nada importa, já que sua beleza continuará imutável. Somente ele sabia o que escondia o quadro e que esse objeto é o que protege seu segredo de juventude eterna. Mas até quando seu corpo e sua alma aguentariam tantas mentiras? até quando a libertinagem saciaria Dorian? Nesse parecer, O retrato de Dorian Gray é um livro filosófico, pois cada página nos mostra o motivo pelo qual foi tão mal visto na época que foi escrito. A cada frase você percebe a luta do autor em falar de sua homossexualidade, de seus desejos no mínimo excêntricos. Não só isso, seria muito injusto falar que Oscar Wilde escreveu essa obra para simplesmente chocar as pessoas sobre suas escolhas sexuais. Em minha opinião fica intrínseca a vontade do autor de mostrar ao mundo como o ser humano pode mudar em função da opinião das outras pessoas. A mudança gritante da personagem principal, de moço ingênuo para um homem cruel e sem moral nos faz perceber que a essência humana é frágil. Refleti com Oscar Wilde sobre os diversos caminhos pelos quais perambula o pensamento filosófico, retratando o antagonismo entre o belo e o feio, o sexo é tratado de maneira velada, no encostar da cadeira, no toque sutil do braço, etc. mas tudo tem um sentido de uma maneira louca.
Ele teria de resto um verdadeiro prazer em observar a transformação. Poderia acompanhar seu espírito pelos pensamentos secretos: o retrato lhe seria o mais magnífico dos espelhos. Como já lha havia revelado o próprio corpo, também lhe revelaria a própria alma. E quando sobre o mesmo quadro se exibissem os efeitos do inverno da vida, nele , seu modelo vivo, resplandeceria a trêmula auréola da primavera e do estio. Quando o sangue lhe viesse a face, deixando atrás uma máscara lívida de giz, ele guardaria o fulgor da adolescência.[...] Uma hora mais tarde, achava-se na ópera, onde Lorde Henry se apoiava ao encosto de sua poltrona” p.106
Percebi esses sentidos porque imaginei o próprio autor escrevendo todas as suas aflições, colocando no personagem tudo aquilo que estava vivendo. Tudo que a sociedade daquela época determinava e vivenciava, mas seria só naquela época? Deixo essa interrogação. Apesar de ter alguns títulos publicados, O retrato de Dorian Gray foi o mais famoso livro publicado de Oscar Wilde, que passou dois anos encarcerado, após perder um processo por difamação contra o marquês de Queensberry, pai de Lorde Alfred Douglas por quem ele era perdidamente apaixonado. Após ser posto em liberdade, exilou-se. Wilde morreu em Paris em 1900 na miséria. Quando anos depois, num encontro nas docas, o irmão de Sibyl Vane, James Vane, ouve que ali está o “príncipe encantador”, sai para matar o homem que seria o motivo do suicídio de sua irmã. Mas Dorian mostra que é belo e jovem, não poderia ser o homem que ele procurava. Depois de confirmar que é ele mesmo, Vane vai buscá-lo em uma área de caça de lordes e acaba morto. O destino parece conspirar á favor do belo Dorian. A relação amorosa que ele manteve com Alam Campbell e com a qual faz a chantagem para que o jovem químico (que posteriormente se mata pela vergonha do que fez) dê fim ao corpo de Basil, assassinado pelo próprio Gray é um momento fortíssimo do romance, mostrando a falta de escrúpulos por parte de Dorian. Ele não só se corrompe: ele corrompe também á sua volta. O ódio maior que ele teve de Basil foi por este ter dito o quanto perverso, sem moral e sem escrúpulos ele tinha se tornado. A condição de Dorian, um homem altamente sexual, evidencia-se também pelo gosto de relacionamentos com o mesmo sexo — além de formas heterossexuais de afeto, acrescenta-se a homossexualidade. O que parecia um prazer eterno, reflete uma maldição? A pintura concebe aflição no homem que vê que a beleza não é tudo, nem mesmo o sexo desnorteado — o Dorian aflige-se com seus traços perfeitos, numa vida firmada na mais banal superficialidade da existência vazia. E seu retrato exprime todas as marcas do tempo, do seu comportamento negro ao longo da narrativa. O autor Oscar Wilde desmascara sua sociedade imersa em hipocrisia e perversões de intrigas sociais e sexuais, um estudo sobre a dualidade da prática do mal e da autoconsciência; da sexualidade e de uma ilusão de beleza que nunca é eterna. O final não poderia ser mais perfeito: o belo Dorian se volta para destruir de vez a obra que lhe serve como espelho e assim põe fim ao seu atormentado e perverso caminho. Só foi reconhecido pelos anéis que usava quando seus empregados foram investigar a origem do grito que ouviram no transcorrer da noite e encontram o cadáver deformado de seu senhor. Referências: WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Trad. João do Rio. São Paulo: Martin Claret, 2009. http://www.mixliterario.com/2012/12/resenha-o-retrato-de-dorian-gray-oscar.html#.UxoeA7O2TIU http://vivianeblood.blogspot.com.br/2013/08/resenhas-o-retrato-de-dorian-gray-oscar.html http://apimentario.blogspot.com.br/2010/11/o-pornografo-envaidecido.html

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Peça dramática Um bonde chamado desejo: uma perspectiva de leitura.





Um bonde chamado desejo foi composto por uma estrutura dialogada como as que são feitas especificamente para o Teatro, mas pela extensão, ele também pode ser considerado um Romance. Assim ele apresenta toda uma nuance diferenciada dentro da proposta do autor, que centra nos diálogos dos personagens, as passagens mais intrigantes para prender a atenção do leitor. Não só isso. Tennesse Williams conseguiu um efeito de recepção muito eficaz no leitor ao prendê-lo nas “entrelinhas” do texto, deixando no ar uma situação no entredito que cada leitor entenderá como quiser. 
As cenas do livro são muito bem descritas e envolvem muitas vezes música para dar o tom da cena, o que chega a ser encantador. Nova Orleans dos anos de 1950-1960 foi o berço do Jazz e do Blues, gêneros musicais Cult, mas que na época eram veiculados em zonas de Storyville, guetos de negros e gente da “pior espécie” do ponto de vista dos caucasianos. Um bonde chamado desejo poderia ser a história de qualquer pessoa do século XXI, na qual há casais problemáticos, jogos de aparências, amor desmedido e selvagem, onde uma mulher fantasia em ser salva da ruína em que se encontra, pronta para encontrar um homem rico que sustente tudo que ela foi um dia: rica, bonita e jovem.
É o retrato de uma sociedade decadente, personificada por Blanche DuBois, uma bela mulher que vai para a casa da irmã por não ter mais para onde ir. À beira da loucura, traumatizada e sofrida, ela entra em confronto com o mundo rude e viril do cunhado, Stanley Kowalski. Essa tensão, estabelecida entre o refinamento e a brutalidade, mostra as ruínas num mundo conflitado, sem lugar para o amor e para a sensibilidade.
As novas mudanças sociais ocorridas no pós-guerra que encontramos nessa peça foram escritas e transpostas para o cinema, e os primeiros  textos do autor (1940-50), foram aclamados pela crítica e audiência, em parte por propiciarem ao público um espetáculo de violência, moralidade, tragédia e romance em um cenário tipicamente urbano, encarnados por personagens cuja marca maior configurava-se no esforço em se apresentarem como indivíduos ou figuras representativas de aspectos peculiares da vida e da tradição norte-americana. 
Em certo sentido, Um bonde chamado Desejo pode ser descrito como a primeira mais bem sucedida incursão de Williams nos meandros da sexualidade humana (evidente na tensão dos desejos animalescos de Blanche e Stanley), um ácido retrato da desintegração pessoal. Williams consegue capturar a imaginação do público, Chamando também a atenção o fato de que enredos reforçaram perfis estereotipados e maniqueístas de mulheres em duas categorias exclusivas, seguindo uma estruturação de narrativa pautada em dois esquemas em funcionamento de uma ordem simbólica caracterizadora da figura feminina como objeto. Seja da mulher como a bela e obediente dona de casa e progenitora ou como as das prostitutas dos salões de baile. Sem dúvida, esses dois tipos clássicos encontram-se retratados em Um bonde chamado desejo sendo a doce e indefesa Stella o primeiro tipo e a desvairada Blanche o segundo. 
Enquanto Blanche pertence ao universo das grandes e decadentes plantações sulistas e atua como um veículo no qual o passado norte-americano de século XIX é revivido, resistindo assim ao seu fatídico e inevitável desaparecimento, Stanley, por sua vez, encapsula a imagem da nova América, do imigrante e do homem da cidade. No espaço da narrativa, é ele aquele que, dentro do seu grupo, encontra-se dotado das qualidades ou habilidades necessárias para vencer no mundo pós-industrializado, no comércio, em um universo reconfigurado pela máquina, pelos carros e locomotivas.
Nesse contexto, ele assevera sua masculinidade e sua falta de refinamento; e, onde não pode dominar sexualmente, ele recorre à violência. Certamente, sua figura representa muito mais a face aceita do típico macho da selva urbana retratado pelas obras de Hollywood nos filmes de gangster nas décadas de 1930.
Frequentemente nos deparamos com personagens femininos agarrando-se tenazmente aos seus sonhos de realização perdidos — Blanche e Scarlet O’Hara são típicos exemplos desta perda. Seus sonhos nunca são concretizados no plano da realidade, exceto pelas fantasias dos romances lidos ou das operetas assistidas, posto que a propulsão do materialismo norte americano destruiu todas as expectativas e sonhos, deixando o homem abandonado em um mundo sem sensibilidade. 
Um bonde chamado desejo recria uma atmosfera de conflitos entre os valores tradicionais e uma nova e dinâmica ordem social: um mundo que fora outrora assentado por elementos como a elegância, a beleza e o floreio do universo burguês do século XIX e que gradualmente desaparece diante da truculenta agressividade materialista da sociedade industrial moderna. Na estrutura narrativa da peça, esse confronto entre duas conjunturas histórico-sociais distintas concentra-se em uma arena de batalha travada pelos personagens Blanche e Stanley. O verniz que reveste Blanche é evidentemente o da decadência do passado aristocrata; seu único meio de sobrevivência em mundo moderno e dinâmico é agarrando-se a um outro ser e  sugando-lhe sua energia física, emocional, ou mesmo material, como um parasito decorativo. Stanley, por sua vez, é constituído de uma energia viril e agressiva, características outrora desprezadas e sublimadas pelo cavalheirismo cortês típico do universo de Belle Reve. Evidentemente, a dramatização desse confronto ocorre em diversas esferas simbólicas, mas é, sobre tudo, em termos sexuais que o passado aristocrata associa-se à imagem da fragilidade feminina confrontando-se com a modernidade representada pela masculinidade ao mesmo tempo carismática e brutal do turbulento confronto entre dois mundos díspares, representado pelas duas personagens, vaticina a vitória da modernidade sobre a tradição aristocrática na forma simbólica em que Blanche sucumbe à força de Stanley no final da peça. 
Ao longo da leitura, testemunhamos uma sucessão de cenas marcadas por uma acirrada disputa entre os protagonistas pelo controle do espaço. A disparidade e o consequente embate entre ambos são sinalizados já na primeira cena na qual Blanche entra elegantemente vestida com “uma valise branca, corpo frágil, exibindo um colar e brincos de pérolas, calcando luvas brancas e um chapéu que, levemente, esconde seu rosto” (WILLIAMS, 1984, p. 15). Seja por meio de sua vestimenta e adereços ou em seu delicado modo de ser portar, Blanche demonstra um imenso descompasso com o novo lugar e situação, não sabendo como agir. Então ela se dá conta de que não se encontra mais em seu território. É somente com a chegada de sua irmã Stella, visivelmente mais adaptada àquele meio, que Blanche sente-se um pouco mais confortável, pois encontra na irmã um elo que conecta esses dois mundos diametralmente opostos. 
Desse modo, o contra-ataque de Blanche à hostilidade do ambiente realista que a tudo devora, tornando a adaptação ao meio a única e exclusiva via de sobrevivência é estabelecido logo na primeira cena em que reafirma seu poder por meio de símbolos aristocráticos como a força do nome e da tradição familiar sobre sua irmã Stella, na tentativa de restabelecer uma ordem social aristocrática e romântica, recobrando assim um status há tempos perdido. Várias são as passagens ilustrativas acerca desse embate: Blanche criticando a aparência de Stella; sua  desaprovação ao novo estilo de vida da irmã em Nova Orleans junto com o marido Stanley, visivelmente um homem de uma classe social inferior à delas, segundo ela mesma expressa.
 Blanche despreza Stanley por considerá-lo um homem “ordinário”, diferente do tipo a qual ela e sua irmã cresceram sendo cortejadas. A rejeição e desprezo da protagonista, além e seu esforço para impor-se naquele ambiente, podem ser interpretados como um evidente enfrentamento dos valores tradicionais diante da nova América que se sobrepõe a um passado que resiste ao desaparecimento. 
Por fim, a simbologia do irreconciliável confronto entre passado e presente, tradição e modernidade das figuras de Stanley e Blanche  encontra na figura de Stella uma via de reconciliação entre ambos. É através dela que a tradição do passado se molda a uma nova configuração presente a fim de garantir a sobrevivência. Mais precisamente, Williams representa como sendo o  filho que ela e Stanley geram, um ponto nodal para produzir uma continuidade na ruptura, mediante a tensão antagônica dos opostos que  permeia toda a história.