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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Camille Claudel


FICHA TÉCNICA TÍTULO NO BRASIL: Camille Claudel TÍTULO ORIGINAL: Camille Claudel DIREÇÃO: Bruno Nuytten GÊNERO: Drama. ANO: 1988. PAÍS: FRANÇA DURAÇÃO: 175 min. ELENCO: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu , Madeleine Robinson , Laurent Grévill Philippe Clévenot Katrine Boorman Maxime Leroux Danièle Lebrun Jean-Pierre Sentier Roger Planchon Aurelle Doazan Madeleine Marie Alain Cuny ...

O filme retrata a vida e a obra da escultora francesa Camille Claudel (08/12/1864 – 19/10/1943). Oriunda de uma família pequeno burguesa, Camille sempre nutriu a paixão pelas artes plásticas, especialmente a área de escultura. Por meio desse trabalho, ela vai conhece o escultor, já reconhecido, Auguste Rodin e consegue tornar-se sua discípula. Trabalhando duro no ateliê, ela se sobressai. Então começa uma relação conflituosa de amor e paixão entre ambos que vai perdurar por anos. Quando ela se transforma em amante do mestre (que já era casado), cai em desgraça junto à sociedade parisiense, embora tenha amigos do porte do compositor Claude Debussy. Rodin já possuía fama de seduzir suas assistentes; mesmo sabendo disso, o amor pela arte acaba aproximando os dois.

Ele a convida oficialmente para ir com ele para Paris e ela aceita passando de "pessoa" à "indivíduo", deixa para trás a crítica de toda uma sociedade e busca a sua vontade individual. Porém, no momento em que, mesmo em Paris, ela é hostilizada por ser amante de Rodin ela começa a abdicar de algumas de suas vontades - até pelo próprio Rodin, que admitia seu talento, porém vendo-o como uma extensão do seu - ela retorna ao posto de pessoa, pois ela continua a agir de acordo com as leis que a sociedade impõe, ela passa a seguir as regras do mundo onde vive, passa a prezar a totalidade social à qual se vincula, sofrendo um “sombreamento” de Rodin, ele sim, o reconhecido.

Dentro do núcleo familiar, apesar de amar o pai e ele expressar sua afeição por ela, Camille tinha uma ligação forte com seu único irmão homem, o escritor Paul Claudel. Jovem anarquista, Paul almejava ser poeta, pois era apaixonado pelas poesias de Arthur Rimbaud, um dos expoentes do Modernismo. Depois de passado os anos ele se converte ao catolicismo e se adapta a sociedade. A mãe de Camille sempre deixava claro sua ojeriza a escultores e a criticava por seguir essa “vocação”.

O romance com Rodin perdurou até a descoberta de estava grávida. Pressiona então ele para que deixe a esposa. Rodin deixa claro que não deixará sua esposa para viver com ela e aí a ruptura se torna inevitável. Acabou abortando, por escolha própria. Depois de desaparecer por dias, ela reaparece, produz uma obra prima digna de um mestre. Ao contemplar o seu talento, os homens para negar sua maestria, disseram que ela era uma bruxa. O trabalho passa a ser o catalizador do seu talento.


Passa a esculpir crianças e uma idosa. Uma nova forma de expressão diferente do que fazia desde então. Rodin reaparece para procurá-la num breve tempo de frágil equilíbrio e mais uma vez ela “balança” e mostra seu trabalho para ele. A dor expressa nas suas esculturas desagrada Rodin e ele a critica duramente por ter mudado seu estilo. Pior do que isso: exige que ela submeta a sua expressão estética ao seu olhar de criticidade e aprovação. Fazendo isso, ele a reduz ao seu lugar social de “mulher”, não a mestre que ele sabia que ela era. Medo talvez de a pupila sobrepujar a arte do mestre, como realmente Camille o faz. Ao contrário de Rodin que sempre valorizou não só o artístico, mas também a remuneração pelo trabalho e produção em larga escala, Camille se nega a vender sua arte dessa maneira tão “capitalista”. Nesse quesito ela se ver diante da nova fase da arte perante o século XX. A arte como maneira de se replicar infinitamente uma peça do original, gerando enormes lucros.

Depois de muitas frustrações, abuso de álcool, tristeza e solidão em demasia, ela compromete sua produção tornando-se “irresponsável” para com seu curador. Seu irmão Paul que se tornara um austero católico praticante “que encontrou a Deus” começa a vislumbrar nas atitudes da sua irmã, a loucura iminente. No fim da vida ela apresenta claros sinais de distúrbios depressivos, inclusive destruindo o próprio trabalho. Destruindo seu trabalho, ela se mostra autodestrutiva.
No meu ponto de vista, percebo essa "loucura" como o que hoje chamamos de 'depressão'. Camille certamente não teve alguém que diagnosticasse este problema e talvez propusesse uma solução para o seu caso como na atualidade, por meio de tratamentos químicos ou psicológicos, justamente pelo falto de que esta doença, ainda, nem era conhecida como tal. Apesar de ter sido diagnosticada como louca Camille era um espírito livre e uma artista de primeira grandeza. Nas suas cartas ela se autodenomina no exílio, desejosa de voltar para casa, fato esse que não ocorreu.

Acredito que ela desejava se adaptar a sociedade de seu tempo- pois ela deseja que Rodin deixe a esposa e case-se com ela -, mas ela sempre se sentia estranha quando o fazia. Tinha o espírito selvagem daqueles que não se deixam ser apreendidos. A única forma de eliminar o problema que ela representava era a excluindo do meio social. Ela não se rendeu ao fervor religioso como seu irmão, disse que seria a mesma, mesmo desprovida de fé. Uma mulher forte que não soube lidar de forma racional com suas emoções e que se autopuniu por ter vivido um amor em toda sua plenitude de vida, coisa para poucos. Em 10 de março de 1913 ela é recolhida ao manicômio. Depois de 30 anos de confinamento, soterrada viva, consciente do que sua família fez, finalmente morreu. Para se ter uma ideia, ela não era mencionada por ninguém da família, até que uma sobrinha neta se interessou em fazer um resgate da ancestral maldita da família, isso com considerável resistência do meio familiar.Camille Claudel foi grande, mestra na arte que expressava seu espírito livre, arte essa que continua transcendendo por gerações.

REFERENCIAS:

http://www.youtube.com/watch?v=fsGAVYfG1XM

http://www.youtube.com/watch?v=Gq_dloKa-fM

http://3.bp.blogspot.com/-eWccjLpGprA/URIG02QizGI/AAAAAAAAC7M/QGeRQJ2jae4/s1600/camille-claudel.jpeg

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A VIDA E OBRA DO GÊNIO CHARLES CHAPLIN

Gênero: Drama Direção: Richard Attenborough Roteiro: Bryan Forbes, William Boyd, William Goldman Elenco: Robert Downey Jr, Anthony Hopkins, Dan Aykroyd, David Duchovny, Diane Lane, Geraldine Chaplin, Kevin Kline, Marisa Tomei, Milla Jovovich, . Produção: Mario Kassar, Richard Attenborough Fotografia: Sven Nykvist Trilha Sonora: John Barry Ano:1992.


O referido filme retrata a trajetória do inglês Charles Spencer Chaplin (interpretado por Robert Downey Jr.), um dos pioneiros na arte do cinema, recontada desde a sua infância pobre na Inglaterra do final do século XIX e inicio do XX, sua vinda para a América – a terra onde os sonhos se tornam realidades -, a conturbada vida amorosa e as perseguições sofridas por ele por parte do FBI. Os americanos da Inteligência desconfiavam de que Chaplin era comunista pelos posicionamentos críticos e cômicos em relação ás instituições legais. Seu personagem principal – que aliás ele mesmo revela que foi o diferencial na sua trajetória artística -, fazia troça de funcionários da alfândega. Ainda utilizava as imagens da estátua da liberdade que ele põe em evidencia nos seus filmes com a clara intenção de fazer mesmo uma crítica velada á “liberdade” vigiada dos cidadãos. Ele diz em uma cena que ama a América, por isso mesmo tem o direito de criticá-la. Apesar de viver e ganhar muito dinheiro na América, nunca pediu a cidadania americana, e isso se tornou alvo de desconfiança por parte dos vigias da sociedade americana. Chaplin foi um jovem idealista, genioso, extremamente perfeccionista e dedicado ao trabalho e, apesar de ter conseguido muito dinheiro – gostava do conforto e do luxo -, aparentemente não se deixou engolir totalmente pelo mercado de produções de massa. Sua arte foi a primeira a passar pelo seu crivo crítico, resistiu o quanto pode a ascensão dos filmes falados, por acreditar que a imagem desfazia as barreiras entre as gentes, impostas pelos idiomas. Sabia que sua tarefa era fazer os milhares de seres humanos rirem, alimentando as esperanças de dias melhores. Num jantar ele diz claramente que seu desejo era que a sétima arte fosse acessível a todos. Por valorizar amizades com pessoas tidas como “perigosas” ao sistema instituído, sua ficha nas agencias de espionagens americanas era vasta. Quando a Europa se vê assolada pela ameaça nazista, ele pondera que necessita tomar uma atitude em relação aos acontecimentos e se declara totalmente averso ao regime de Adolf Hitler. Quando decide produzir “O Grande ditador”, recebeu duras críticas do seu irmão – que era judeu por parte de pai – e o enfrentou dizendo que gostaria de ele mesmo ter essa honra de ser um judeu. O filme de Chaplin vai ser aclamado depois da segunda grande guerra, provando que ele era um homem que percebia as mudanças do seu tempo a ponto de antecipá-las. Em Tempos modernos ele faz um exercício da crítica ao mostrar o quanto a mecanização do trabalho se estende ao mecanicismo da vida humana, como crítica ferrenha ao modernismo que retira do homem a necessidade de ser pelo de ter. Historicamente falando, esse filme biográfico é uma mostra de como se produz uma história em particular. O personagem do historiador, o homem que escreve mediante os fluxos de memória de Chaplin, cuja memoria coletiva vai tornando-se individual e que é suprimida, selecionada, posta em evidencia de acordo com o propósito daquele que paga para que esse serviço seja assim. E alguns trechos, o escritor lhe pergunta por que não menciona tal fato ou não quer expor tal fraqueza e ele diz que não acha relevante para sua memória póstuma. Até mesmo na sua autobiografia filmada, Chaplin critica o Outro a partir de si mesmo, sendo fiel ao seu espírito transgressor. Essa é um modelo de fazer a História, mostra assim que a ciência tanto pode contribuir para evidenciar aquilo que se quer silenciar, como pode ser utilizada para silenciar aquilo que não interessa aos grupos dominantes, políticos econômicos e ideológicos. Tudo a partir do simbólico das artes, cujo poder de coação e de imposição se sobrepõe até mesmo a da violência física. Essa parte é um exemplo claro do pensamento de Charles Chaplin sobre o mundo e sobre si mesmo, presente no final do filme “O Grande Ditador.” “Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos- se possível- judeus, o gentio…negros…brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que temos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, desviamo-nos dele. A cobiça envenenou a alma dos homens…levantou no mundo as muralhas do ódio…e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios . Criamos a época da produção veloz, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz em grande escala, tem provocado a escassez. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura! Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido.

Fonte: http://amizadepoesia.wordpress.com/2007/01/29/o-pensamento-vivo-de-charles-chaplin/ disponível em 17/10/2013

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Resenha sobre o filme Hannah Arendt

FICHA TÉCNICA Gênero: Drama Direção: Margarethe Von Trotta Ano:2012 Roteiro: Margarethe Von Trotta Elenco: Axel Milberg, Barbara Sukowa, Claire Johnston, Friederike Becht, Gilbert Johnston, Harvey Friedman, Janet McTeer, Julia Jentsch, Klaus Pohl, Megan Gay, Michael Degen, Nicholas Woodeson, Nilton Martins, Sascha Ley, Tom Leick, Ulrich Noethen, Victoria Trauttmansdorff. Produção: Bettina Brokemper, Johannes Rexin Fotografia: Caroline Champetier.


O filme Hannah Arendt, cujo título é o nome da filósofa judia, dá nome ao filme de Margarethe von Trotta. Ela é autora de uma das obras filosóficas mais importantes do século 20, tendo relevância fundamental para ajudar na compreensão de quem foi essa pessoa que trata o filme, bem como sua importância para a ciência enquanto campo de conhecimentos que progride mediante aqueles que ousam extrapolar as fronteiras do estabelecido. O filme retrata a personagem principal, enfatizada como uma pessoa comum, professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Ela não é um ser ficcional e sim uma mulher que existiu na realidade e que marcou seu nome na História como uma pensadora do seu tempo. Mais que isso: ela ousou questionar toda a ordem de discursos sobre o tema do nazismo, a tônica do filme, mais precisamente os crimes de guerra. O tempo representado é o período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Nos anos 50 – quando começa propriamente a ação do filme – já escritora e professora consagrada, Hannah recebe a notícia da prisão do criminoso de guerra Adolf Eichmann, que será julgado em Israel. Ela fica, então, fascinada com a possibilidade de assistir pessoalmente o julgamento, e se oferece como correspondente da revista “New Yorker” para empreender a viagem. Por quê? “Por que nunca vi um nazista frente a frente”, diz ela. Os problemas começam quando Hannah, na contramão da opinião pública, passa a defender a ideia que Eichmann não é esse monstro que a mídia pinta, mas apenas um funcionário burocrata de Hitler, incapaz de pensar por si só, que não pode ser responsabilizado pelo Holocausto. E mais: questiona o motivo de vários líderes judeus terem colaborado com o Nazismo. Como sempre acontece com as opiniões que ousam ir contra a corrente, a opinião pública prefere julgar e condenar com ódio e rigor a ouvir os prováveis outros lados da questão e foi isso que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo; uma análise reflexiva sobre Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se que esse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual a tanta gente, causou mal estar. Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa quanto crítica relativa à “Banalidade do mal”. Por banalidade do mal, ela se referia ao mal praticado no cotidiano como um ato qualquer. Muitas pessoas interpretaram a visão de Arendt como uma afronta à desgraça judaica, enquanto ela – filósofa descomprometida com qualquer tipo de facção, religião, partido ou ideologia – tentava entender o que realmente se passava na cabeça de um homem como Eichmann, um medíocre que só recebia e obedecia as ordens enviadas por seu estado maior sem nem por um minuto questioná-las. Hannah Arendt não tomava sua condição de judia como superior à sua posição como pensadora, comprometida com a compreensão de seu tempo. A condição judaica era, para ela, condição humana. Não menos, não mais. O problema da subjetividade, das escolhas éticas que implicam liberdade e responsabilidade, era a questão central no momento em que se tratava de pensar e realizar a política. E como discípula de um conhecido transgressor chamado Martin Heidegger, filósofo alemão, muito reconhecido pela recolocação do problema do ser e pela refundação da Ontologia, pela importância que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural, não deixou de fazer o exercício solitário de pensar sobre a questão do que faz um ser como Eichman se tornar um comissário de mortos inocentes na máquina da “solução final” dos nazistas no caso dos judeus mortos durante o holocausto do século XX. No filme, fica claro que aqueles que se manifestaram furiosos ou ofendidos contra a tese de Arendt de fato não a compreenderam. Isso porque a tese de A banalidade do mal é uma tese difícil, não por sua lógica, mas por seu caráter performativo. Aquele que é confrontado com ela precisa fazer um exame de sua consciência particular em relação ao geral e, portanto, de seus atos enquanto participante da condição humana. A banalidade do mal significa que o mal não é praticado como atitude deliberadamente maligna. O praticante do mal banal é o ser humano comum, aquele que ao receber ordens não se responsabiliza pelo que faz, não reflete, não pensa. Eichmann foi caracterizado por Arendt como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”, como um imbecil que não pensava, que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência. Heidegger, o filósofo nazista que diz ter se arrependido de aderir ao regime, era, no entanto, um gênio da filosofia e, contudo, não era diferente de Eichmann. Aterrador, no entanto, é que entre Eichmann, o imbecil, e Heidegger, o gênio, esteja o ser humano comum. Eichmann não era diferente de qualquer pessoa, era um simples burocrata que recebia ordens e que punha em funcionamento a “máquina” do sistema, do mesmo modo que cada um de nós pode fazê-lo a cada momento em que, liberado da reflexão que une, em nossa capacidade de discernimento e julgamento, a teoria e a prática, seguimos as “tendências dominantes” como escravos livres, contudo, de si mesmos. Sair da banalidade do mal é fazer a opção ética e responsável na contramão da tendência à destruição que convida constantemente cada um a aderir. A banalidade do mal é, portanto, uma característica de uma cultura carente de pensamento crítico, em que qualquer um – seja judeu, cristão, alemão, brasileiro, mulher, homem, não importa – pode exercer a negação do outro e de si mesmo. Em um país como o Brasil, em que a banalidade do mal realiza-se na corrupção autorizada, na homofobia, no consumismo e no assassinato de todos aqueles que não têm poder, seja Amarildo de Souza, seja Celso Rodrigues Guarani–Kaiowá, uma parada para pensar pode significar o bom começo de um crime a menos na sociedade e no Estado transformados em máquina de morte institucionalizada. A utilização de cenas reais do julgamento é um recurso brilhante e forte. Estilisticamente, tudo é muito simples, com planos e contraplanos corriqueiros e enquadramentos televisivos. Mas não é isto que importa, e sim, reconhecer a coragem desta mulher que ousou formular uma fascinante “Teoria da Maldade”, por meio da qual as grandes atrocidades da história da Humanidade são cometidas não exatamente pela crueldade humana, mas por males ainda maiores, como a omissão e a incapacidade de pensar.


REFERENCIAS: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/hanna-arendt/ http://www.planetatela.com.br/cri.php?cri_id=656 http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Filme O óleo de Lourenzo

O filme aborda a história baseada em fatos reais, de um casal de historiadores que descobrem em seu filho Lorenzo de 5 anos, uma doença rara e degenerativa diagnosticada como adrenoleucodistrofia (ADL), que provoca uma incurável degeneração do cérebro, levando o paciente a morte em pouco tempo. Após a descoberta dessa doença em Lorenzo, seus pais acabam vivenciando a frustração da falta de medicamentos e terapias para a doença e o quase total desconhecimento por parte dos médicos em relação á essa moléstia que datava de pouco mais de dez anos de descoberta. Quando obedecem as orientações dos médicos e não percebem nenhum tipo de progresso no quadro clínico de Lorenzo, eles decidem agir por conta própria e procurar, eles mesmos, uma solução. A partir da constatação que em no máximo três anos o menino faleceria, eles começam a estudar e pesquisar sozinhos na esperança de encontrar alguma substância que pudesse amenizar ou conter o avanço da doença. A mesma estava destruindo progressivamente o cérebro de Lorenzo deixando-o cego, deficiente físico, incapaz de engolir e de se comunicar. Os pais de Lorenzo buscam em bibliotecas, fazendo um estudo do caso de seu filho, e quando constatavam alguma informação relevante, procuravam médicos e professores de medicina para discutir suas ideias a fim de encontrar algo que amenizasse o sofrimento do garoto.
Interessante perceber que os profissionais, que faziam as pesquisas sobre a doença, estavam separados entre si por nacionalidades diferentes e falta de comunicação. Assim sendo, não poderiam ter uma ideia do “todo”. Para sanar essa problemática, Augusto e Micaela decidem procurar recursos para patrocinar o I simpósio sobre ADL, com vistas a reunir os pesquisadores em torno das soluções para os impasses científicos envolvendo a doença.Podemos constatar que, em alguns momentos históricos, o conhecimento científico se torna uma fonte passível de questionamentos uma vez que não responda ás demandas pelas quais existem.
Seria necessário romper com os paradigmas previamente estabelecidos por uma tradição, que muitas vezes “caduca” em relação aos avanços das necessidades humanas. O filme “O Óleo de Lorenzo” ao contemplar em seu enredo os aspectos e fundamentos do conhecimento científico, demonstrando a investigação científica como um recurso de aderência de respostas e soluções que justificam/explicam um determinado problema, permite-nos compreender, de forma emocionante, que as verdades universais não são absolutas, sendo passíveis de mudanças. Diante disso, pode-se afirmar que a descoberta do óleo de Lorenzo como uma forma de tratamento para a Adrenoleucodistrofia, firma a mutabilidade das verdades universais, permitida pelas pesquisas científicas, como um meio de se conquistar avanços científicos e mais que isso, como um meio de amenizar sofrimentos e poupar vidas.
Nessa busca pela cura, os pais de Lorenzo encontraram diversas barreiras por serem leigos no assunto e o próprio preconceito, por não terem formação na área específica, como se o conhecimento ficasse restrito aqueles que estavam atuando na dita área, no caso, biomedicina. Encontram resistência da parte de todos: da associação de pais de portadores de ADL na divulgação das informações a respeito dos resultados das pesquisas obtidas, dos médicos que refutam os resultados porque alegam que não tem a quantidade de testes suficientes – Micaela e a irmã dela(a mãe e a tia de Lorenzo) foram os “ratos” de teste das fórmulas encontradas para a pesquisa. Assim, depois de muitos estudos, pesquisas e testes, além de ajuda de terceiros, os pais de Lorenzo descobriram o óleo, que não curava efetivamente a doença, mas que estagnava a mesma. Com o uso desse óleo, Lorenzo não voltou ao seu estado normal pela perda enorme de mielina ocorrida durante o tempo em que a pesquisa não terminava, porém a progressão da enfermidade cessou. Com o uso do óleo, Lorenzo alcançou uma qualidade de vida significativa e seu pai desenvolveu uma tese de doutorado na área de medicina, mostrando o quanto um conhecimento estabelecido como “canônico” pode vir a ser abolido por outro que possa ser produzido. O filme é verdadeira lição de vida, pois pessoas leigas que ao verem o sofrimento de seu próximo, no caso seu filho se sensibilizaram e começaram a buscar, por meio dos conhecimentos existentes, construir um novo conhecimento, enfrentaram preconceitos e barreiras, mas que venceram pela irrefutabilidade da persistência e da comprovação dos resultados. Vidas no mundo inteiro foram beneficiadas com o ato de coragem dos pais de Lorenzo.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Resenha sobre a produção cinematográfica de Alexandre o Grande -2004

          
FICHA TÉCNICA
TÍTULO ORIGINAL: Alexandre DIRETOR: Oliver Stone GÊNERO: Drama. ANO: 2004. 
 PAÍS: USA DURAÇÃO: 135 min.
ELENCO:  Aleczander Gordon, Angelina Jolie, Anjali Mehra, Annelise Hesme, Anthony Hopkins, Anthony Jean Marie Kurt, Benny Maslov, Bin Bunluerit, Brian Blessed, Brian McGrath, Chris Aberdein, Christopher Plummer, Colin Farrell, Connor Paolo, David Bedella, Denis Conway, Elliot Cowan, Erol Sander, Féodor Atkine, Fiona O'Shaughnessy, Francisco Bosch, Garrett Lombard, Gary Stretch, Gillian Grueber, Harry Kent, Ian Beattie, Isaac Mullins, Jaran Ngamdee, Jared Leto, Jean Le Duc, Jessie Kamm, John Kavanagh, Jonathan Rhys-Meyers, Joseph Morgan, Kate Elouise, Laird Macintosh, Leighton Morrison, Marie Meyer, Marta Barahona, Matthew Powell...
ROTEIRO: Christopher Kyle, Laeta Kalogridis, Oliver Stone.


O filme em questão começa com o velho Ptolomeu (Anthony Hopkins) sendo o narrador das conquistas e derrotas do personagem histórico vivido por Colin Farrell. Desde a tenra infância, ele foi criado por sua mãe, Olímpia (Angelina Jolie), entre cobras, literalmente. Casada com o rei da Macedônia Felipe II (Val Kilmer), ela é considerada uma bruxa graças ao temperamento forte e seus répteis de estimação. Por não ser uma mulher macedônica, a origem “bastarda” de Alexandre vai-lhe ser lançada em rosto no conflito desencadeado pelo segundo casamento do pai.
Alexandre cresce fascinado por duas coisas que sempre permearam sua existência: a geografia do Velho Mundo e os rapazes. Os ensinos de seu mestre prognosticavam que quando homens deitam juntos por luxúria, ocorria a corrupção. Mas se isso ocorresse por troca de conhecimento e virtude (sêmen) então era considerado um ato puro e excelente. A visão sobre o que hoje consideramos homossexual não possuía a conotação bestial e pejorativa que nossa sociedade ocidental adotou. Porém é importante ressaltar que havia regras para que isso ocorresse. Não podia ser somente uma satisfação dos sentidos. Deveria ser algo mais “excelente”. Interessante esse debate em que o ciúme e o desejo de vingança de Aquiles pelo seu amante obscureceu seus demais atos comprometendo a batalha referida na discussão do velho mestre com os seus pupilos. 
Nas arenas de luta infantil, Alexandre conhece seu primeiro amor: o belo e exímio lutador Heféstio por quem nutre uma longa e duradoura relação homo afetiva. Devido á sua preferência por esse jovem, sua mãe (a sagaz Olímpia) o pressiona para que, aos 19 anos, escolha uma mulher mecedônica para casar e procriar, garantindo assim o seu direito como sucessor de Felipe II. Percebe-se que a mãe sabe dos sentimentos do filho, porém ela é enfática ao dizer-lhe que ele deveria fazer distinção entre os sentimentos e os deveres. O fato de as mulheres comentarem que ele não as apreciava, deixava “brechas” para oposições a sua ascensão ao trono. Mais uma vez vemos que as relações de cunho sexual e afetivo passavam pelo crivo das convenções e que apesar de aparentemente toleráveis, deveriam se restringir as esferas privadas.  
Aos 20 anos, Alexandre começou sua jornada pelas terras conhecidas pelo homem antigo, primeiramente levando seus soldados rumo à Ásia para libertá-la dos domínios persas. Quando se apossa dos domínios de Dario, bem como do seu harém, o que lhe desperta a atenção é a presença de um homem travestido no meio das mulheres. Esse viria a ser seu serviçal pessoal, Bagoa. Nesse universo oriental em que Alexandre se propôs a explorar, ele conheceu aquela que seria sua esposa, Roxana. Não á toa uma mulher bárbara, reflexo de sua ligação íntima com sua mãe, mulher extremamente dominadora com quem mantinha uma dependência psicológica fortíssima e arrisco-me a perscrutar se ele não sentia algo de edipiano pela mesma.  
Apesar de casar-se (diga-se de passagem, contra a vontade do conselho militar que somente queria que fosse uma mulher de origem nobre e macedônica, outro preconceito sofrido pela sua mãe ao qual parece que ele queria exorcizar) e coabitar com a dama, desejando assim trazer á luz um herdeiro, ele parece mais feliz com seu antigo amante, Heféstio (Jared Leto), fiel a Alexandre até a morte. Na noite de núpcias em que a mulher o encontra com o amante, ele confessa que o ama e que por isso poderia ela matá-lo. Dessa forma ele desnuda sua alma para a mulher, que aparentemente compreende o tormento do coração de Alexandre. Nas palavras do personagem, não sabemos se ele disse isso, mas poderia ter dito "há muitas formas de amar". Ele estava cumprindo seu dever enquanto soberano. Isso deveras incomodou os expectadores latino-americanos porque, em nossa cultura, a homossexualidade aparece como uma mancha na valentia do guerreiro.
Nos Estados Unidos e no Brasil, a recepção a Alexandre foi debaixo de uma enxurrada de críticas. Havia um verdadeiro desconforto ao ver uma relação entre Alexandre e Heféstio (nada de conteúdo explicito, somente subjetivo) e a relação dele com o rapaz do harém, o Bagoa. Por trás da acidez das críticas, está sobretudo a dificuldade de aceitar que um herói, cuja ambição e coragem são míticas, não coincida com o estereótipo dominante da virilidade. Pergunta inquieta: quem será o macho e quem será a fêmea do casal? Como fica se ambos são valentes e guerreiros? Além disso, apaixonar-se por uma mulher já é frescura, imagine se for por outro homem. 
Alexandre tinha uma relação "especial" com Olímpia, sua mãe (que assassinou o marido para que Alexandre se tornasse rei). Essa relação quase incestuosa entre Alexandre e Olímpia corresponde ao entendimento comum das causas da homossexualidade. Desde Freud, pensa-se que a homossexualidade masculina seja efeito de um excessivo apego a uma mãe exageradamente protetora. Isso passa a ser visto como um lugar comum visto que as questões envolvendo a sexualidade abarcam fatores complexos e ainda desconhecidos como no campo da biologia, da psicologia e de fatores fenotípicos, etc.. Ninguém pode cientificamente afirmar que, segundo esse pressuposto da influência materna, quem é "fresco" deve ter crescido ao abrigo das saias maternas. Seja como for, essa foi  mais uma razão de mal-estar para os heterodoxos de plantão: o herói guerreiro, além de relacionar-se com Heféstio, era um filhinho da mamãe. Isso é erro crasso que precisa ser evitado.
No tempo em que Alexandre vivia, os sentimentos e as práticas sexuais dele não comprometiam sua virilidade guerreira. A cultura da Grécia antiga admitia um tipo específico de relacionamento homossexual: o amor de um homem (entre 20 e 40 anos) por um jovem (no tempo da puberdade). Na relação, o jovem oferecia devoção e satisfação sexual e ganhava em troca, além do afeto, uma educação moral, intelectual e espiritual. Fora desse quadro, na Grécia antiga, as relações entre homens não eram encorajadas, mas não eram propriamente objeto de censura. Ser "macho" não dependia da escolha do sexo do parceiro. Aquiles, o guerreiro exemplar, além de amores com escravas, tinha uma paixão pelo amigo Pátroclo (também nobre guerreiro). Alexandre vivia seu amor por Heféstio como a réplica do amor entre Aquiles e Pátroclo. 
Os imperadores, por exemplo, dispunham de um paedagogium imperial, cuja função oficial era de servir como escola para jovens que se destinavam ao serviço público, mas que se tornou, às vezes, uma espécie de harém de meninos. Mesma coisa para os amores viris entre Aquiles e Pátroclo: os romanos entenderam a coisa como um vale-tudo. 
Aos 20 anos, Alexandre assumiu o trono da Macedônia, no norte da Grécia de hoje. Nascido em 356 a.C., desde pequeno manuseava lanças, virando chefe de exército antes dos 18 anos. Mas não era um bruto. Nas crises, repetia a Ilíada, o poema de Homero sobre a guerra de Tróia. Não por acaso, discutia literatura, ética e metafísica com desenvoltura: foi discípulo de Aristóteles, um dos maiores pensadores da humanidade. No início do governo, o desafio era derrotar o Império Persa. Ambicioso, superou as expectativas dos súditos e, em 12 anos de lutas, criou uma superpotência ao tomar conta de 90% do mundo então conhecido, expandindo o seu império até a Índia  e a Ásia. 
Fundou 70 cidades, fomentou o comércio e a troca de culturas. Tanto que incentivou o casamento de seus auxiliares com asiáticas, escolhendo a iraniana Roxana para esposa. Caso julgasse necessário, era impiedoso, mas se notabilizou por transformar adversários em aliados e por conduzir os soldados com carisma. Porém, o que desejava mesmo era ser adorado como um deus. A certa altura, deixou de ouvir seus oficiais, perdeu apoio e começou a abusar do álcool. Ao seu lado, permanecia o amigo Heféstio, que se excedeu no vinho até a morte. Alexandre chorou por dias a perda do amado. Com a saúde debilitada pelas guerras, acabou morrendo depois de uma bebedeira, numa festa que durou cinco dias. Tinha 32 anos e não deixou herdeiros, mas seu legado desdobrou-se no surgimento do Império Romano e na expansão do cristianismo. 

 
 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Resenha do filme clássico "E o vento levou"


FICHA TÉCNICA
Gênero: Drama                Direção Victor Fleming     Ano:1939                Roteiro: Sidney Howard
Elenco: Alicia Rhett, Ann Rutherford, Barbara O'Neil, Butterfly McQueen, Cammie King Conlon, Carroll Nye, Clark Gable, Cliff Edwards, Eddie "Rochester" Anderson, Eric Linden, Evelyn Keyes, Everett Brown, Fred Crane, George Reeves, Harry Davenport, Hattie McDaniel, Howard C. Hickman, Irving Bacon, Isabel Jewell, J.M. Kerrigan, Jackie Moran, Jane Darwell, Laura Hope Crews, Leona Roberts, Leslie Howard, Lillian 
Kemble-Cooper, Louis Jean Heydt, Marcella Martin, Mary Anderson, Mickey Kuhn, Olin Howland, Olivia de Havilland, Ona Munson, Oscar Polk, Vivian Leigh....

O filme trata especificamente o período compreendido pelo acontecimento da Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1861 - 1865), entre o Sul (Confederados) e o Norte do país (Yanques). As diferenças entre esses dois polos do país se explica,  em grande parte,  pela forma inicial de colonização das duas regiões, sendo que no norte se praticou uma ocupação de permanência, onde os colonos tinham o objetivo de fazer das terras que ocupavam sua morada definitiva. No sul, o sistema colonial escolhido foi de predomínio das grandes propriedades dedicadas á monocultura (plantation),com a utilização de mão de obra escrava (já extinta no norte).
Numa dessas fazendas do sul, nasce a voluntariosa Scarlett O´Hara (Vivien Leigh), uma garota bem nascida, branca, de família iminente na região, descendente de irlandeses por parte de pai, que coleciona pretendentes. Porém Scarlett é apaixonada por um homem que, não obstante ser um igual em origem, é comprometido por laços sociais ao matrimônio com uma prima (Melanie). Apesar de amar Scarlett, Ashley sente que não poderia casar-se com ela, por serem diferentes e sentir nela uma diferença comportamental já notória para um compromisso duradouro.
Com o advento da guerra, Ashley casa-se as pressas com Melanie, e Scarlett para não ficar atrás, casa- se com o irmão de Melanie para manter-se próxima de Ashley. Nessa primeira parte do filme, podemos perceber no comportamento de Scarlett, a transgressão total do papel feminino imposto pela sociedade da época: Ela mente, articula estratégias para manter-se próxima do seu objetivo, declara-se abertamente para Ashley, falseia sentimentos por Melanie conquistando sua confiança. Em meio os arrochados espartilhos e a fome excessiva de comida e de vida, Scarlett procura de todas as maneiras, burlar as regras sociais que a cerceiam.
Viúva precocemente, Scarlett se ver responsável por Melanie e o filho de Ashley e retorna a Tara (fazenda de sua família, fonte inesgotável de sua força e amor) buscando proteger-se da devastação da guerra. Tudo o que estava ocorrendo muda a vida da garota, que perde seus luxos e passa de uma menina mimada a uma mulher forte e decidida. Ao voltar e encontrar a terra devastada, a mãe morta, o pai louco, as duas irmãs prostadas por Tifo, apenas dois escravos do contingente que a família possuía e a fome desoladora, Scarlett promete a si mesma que não será destruída e que fará qualquer coisa para atingir seus objetivos. Para preservar a fazenda da família, ela não mede esforços e será capaz de todas as transgressões possíveis, até mesmo mata para proteger a propriedade e é acobertada por Melanie.
Nas relações em festas no centro urbano (Atlanta) onde morava sua tia, ela conhece Rhett Butler (Clark Gable), um charmoso aventureiro disposto a tudo por uma aventura amorosa e por lucros. Esse é verdadeiramente seu igual, conhece o teor da alma de Scarlett e faz de tudo para seduzi-la, mas não consegue retirar o amor dela por Ashley. Em vários momentos Rhett a socorre, mas a relação conflituosa se estende desde o primeiro matrimônio de Scarlett até o fim do segundo (pois ela rouba o noivo da irmã) por ser esse um eminente empresário no ramo de madeireiras.  
Scarlett escandaliza em diversas esferas: trata diretamente com homens quando no período uma mulher não poderia dirigir-se a um homem sem uma acompanhante idônea, dançou com Rhett por dinheiro voltado á causa quando viúva, odiava usar preto, dirige seu próprio “coche” (carro, na atualidade), controla os negócios, coisa inadmissível para uma mulher. Ao ser flagrada em cenas de carinho com Ashley, recebe o desprezo e a exclusão das senhoras e é apoiada por Melanie.
Scarlett é a ruptura definitiva da heroína clássica: é forte, decidida, disposta a correr riscos no que tange a reputação, mas sua inconstância e interesse fazem com que ela concorde em casar-se com Rhett. Depois de dar a luz uma filha, Scarlett comete outra grande transgressão que para a época era pecado mortal: diz abertamente não querer mais ter filhos, o que para um machão como Rhett significava uma espécie de rejeição. O casamento aparente prossegue e nisso Scarlett não é diferente das mulheres de sua época. Rhett é totalmente dedicado a educação de Bonnie e a leva para viver com ele. Passado algum tempo, ele retorna para casa e nessas muitas idas e vindas, Scarlett o encontra bêbado e aí.... tenho a impressão de um estupro consentido. Isso é que derruba por vez toda a construção da personagem, quando ela acorda toda feliz na manhã seguinte, depois de ter sido “estuprada” pelo marido. Essa cena é a mais problemática de E o Vento Levou, junto com todas as que mostram qualquer personagem negro.
Realmente nos vem a ideia de que o diretor quer domar a personagem, que em muito, extrapola o suporte que a mídia da época permitia. Ao anular Scarlett na sua decisão de manter-se longe de Rhett, depois de longos anos em que ambos foram infelizes, colocá-la como derrotada pelas próprias emoções não fazem jus ao complexo personagem que ela é. Scarlett dizer “o que vou fazer sem você?” no final do filme chega a ser piegas para uma mulher que passou o que ela passou. Acredito  que ela possa ter amado Rhett. Mas não nos moldes tradicionais. Esse ela sente por Ashley, que no fim, passa a não corresponder as expectativas, já que não é capaz de administrar a própria dor da perda e Melanie a faz prometer que cuidará dele no leito de morte. Esse não é o jovem que ela amou, assim como ela não é mais a jovem ingênua do passado. Scarlett só possui uma coisa mais importante que a faz renascer sempre: o sentido de sua origem e o amor incomensurável que sente por Tara. Isso a torna digna de entrar na galeria de personagens marcantes da sétima arte.