quinta-feira, 31 de julho de 2014

Resenha sobre o filme Hannah Arendt

FICHA TÉCNICA Gênero: Drama Direção: Margarethe Von Trotta Ano:2012 Roteiro: Margarethe Von Trotta Elenco: Axel Milberg, Barbara Sukowa, Claire Johnston, Friederike Becht, Gilbert Johnston, Harvey Friedman, Janet McTeer, Julia Jentsch, Klaus Pohl, Megan Gay, Michael Degen, Nicholas Woodeson, Nilton Martins, Sascha Ley, Tom Leick, Ulrich Noethen, Victoria Trauttmansdorff. Produção: Bettina Brokemper, Johannes Rexin Fotografia: Caroline Champetier.


O filme Hannah Arendt, cujo título é o nome da filósofa judia, dá nome ao filme de Margarethe von Trotta. Ela é autora de uma das obras filosóficas mais importantes do século 20, tendo relevância fundamental para ajudar na compreensão de quem foi essa pessoa que trata o filme, bem como sua importância para a ciência enquanto campo de conhecimentos que progride mediante aqueles que ousam extrapolar as fronteiras do estabelecido. O filme retrata a personagem principal, enfatizada como uma pessoa comum, professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Ela não é um ser ficcional e sim uma mulher que existiu na realidade e que marcou seu nome na História como uma pensadora do seu tempo. Mais que isso: ela ousou questionar toda a ordem de discursos sobre o tema do nazismo, a tônica do filme, mais precisamente os crimes de guerra. O tempo representado é o período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Nos anos 50 – quando começa propriamente a ação do filme – já escritora e professora consagrada, Hannah recebe a notícia da prisão do criminoso de guerra Adolf Eichmann, que será julgado em Israel. Ela fica, então, fascinada com a possibilidade de assistir pessoalmente o julgamento, e se oferece como correspondente da revista “New Yorker” para empreender a viagem. Por quê? “Por que nunca vi um nazista frente a frente”, diz ela. Os problemas começam quando Hannah, na contramão da opinião pública, passa a defender a ideia que Eichmann não é esse monstro que a mídia pinta, mas apenas um funcionário burocrata de Hitler, incapaz de pensar por si só, que não pode ser responsabilizado pelo Holocausto. E mais: questiona o motivo de vários líderes judeus terem colaborado com o Nazismo. Como sempre acontece com as opiniões que ousam ir contra a corrente, a opinião pública prefere julgar e condenar com ódio e rigor a ouvir os prováveis outros lados da questão e foi isso que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo; uma análise reflexiva sobre Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se que esse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual a tanta gente, causou mal estar. Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa quanto crítica relativa à “Banalidade do mal”. Por banalidade do mal, ela se referia ao mal praticado no cotidiano como um ato qualquer. Muitas pessoas interpretaram a visão de Arendt como uma afronta à desgraça judaica, enquanto ela – filósofa descomprometida com qualquer tipo de facção, religião, partido ou ideologia – tentava entender o que realmente se passava na cabeça de um homem como Eichmann, um medíocre que só recebia e obedecia as ordens enviadas por seu estado maior sem nem por um minuto questioná-las. Hannah Arendt não tomava sua condição de judia como superior à sua posição como pensadora, comprometida com a compreensão de seu tempo. A condição judaica era, para ela, condição humana. Não menos, não mais. O problema da subjetividade, das escolhas éticas que implicam liberdade e responsabilidade, era a questão central no momento em que se tratava de pensar e realizar a política. E como discípula de um conhecido transgressor chamado Martin Heidegger, filósofo alemão, muito reconhecido pela recolocação do problema do ser e pela refundação da Ontologia, pela importância que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural, não deixou de fazer o exercício solitário de pensar sobre a questão do que faz um ser como Eichman se tornar um comissário de mortos inocentes na máquina da “solução final” dos nazistas no caso dos judeus mortos durante o holocausto do século XX. No filme, fica claro que aqueles que se manifestaram furiosos ou ofendidos contra a tese de Arendt de fato não a compreenderam. Isso porque a tese de A banalidade do mal é uma tese difícil, não por sua lógica, mas por seu caráter performativo. Aquele que é confrontado com ela precisa fazer um exame de sua consciência particular em relação ao geral e, portanto, de seus atos enquanto participante da condição humana. A banalidade do mal significa que o mal não é praticado como atitude deliberadamente maligna. O praticante do mal banal é o ser humano comum, aquele que ao receber ordens não se responsabiliza pelo que faz, não reflete, não pensa. Eichmann foi caracterizado por Arendt como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”, como um imbecil que não pensava, que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência. Heidegger, o filósofo nazista que diz ter se arrependido de aderir ao regime, era, no entanto, um gênio da filosofia e, contudo, não era diferente de Eichmann. Aterrador, no entanto, é que entre Eichmann, o imbecil, e Heidegger, o gênio, esteja o ser humano comum. Eichmann não era diferente de qualquer pessoa, era um simples burocrata que recebia ordens e que punha em funcionamento a “máquina” do sistema, do mesmo modo que cada um de nós pode fazê-lo a cada momento em que, liberado da reflexão que une, em nossa capacidade de discernimento e julgamento, a teoria e a prática, seguimos as “tendências dominantes” como escravos livres, contudo, de si mesmos. Sair da banalidade do mal é fazer a opção ética e responsável na contramão da tendência à destruição que convida constantemente cada um a aderir. A banalidade do mal é, portanto, uma característica de uma cultura carente de pensamento crítico, em que qualquer um – seja judeu, cristão, alemão, brasileiro, mulher, homem, não importa – pode exercer a negação do outro e de si mesmo. Em um país como o Brasil, em que a banalidade do mal realiza-se na corrupção autorizada, na homofobia, no consumismo e no assassinato de todos aqueles que não têm poder, seja Amarildo de Souza, seja Celso Rodrigues Guarani–Kaiowá, uma parada para pensar pode significar o bom começo de um crime a menos na sociedade e no Estado transformados em máquina de morte institucionalizada. A utilização de cenas reais do julgamento é um recurso brilhante e forte. Estilisticamente, tudo é muito simples, com planos e contraplanos corriqueiros e enquadramentos televisivos. Mas não é isto que importa, e sim, reconhecer a coragem desta mulher que ousou formular uma fascinante “Teoria da Maldade”, por meio da qual as grandes atrocidades da história da Humanidade são cometidas não exatamente pela crueldade humana, mas por males ainda maiores, como a omissão e a incapacidade de pensar.


REFERENCIAS: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/hanna-arendt/ http://www.planetatela.com.br/cri.php?cri_id=656 http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger

2 comentários:

  1. Ótima síntese,quero ver o filme agora... Como um simples ato de pensar,nos gera tantas interpretações

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  2. Belíssimas palavras! Já tinha gostado do filme, e acabei gostando mais rsrs muito obrigada.

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