segunda-feira, 22 de junho de 2015

Os Lusíadas


"No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"

Última estrofe do canto I


Nessa obra Os Lusíadas, o poeta e militar Luís de Camões, nascido na península ibérica, mais precisamente em Portugal, engendra a epopeia dos tempos modernos, no século XVI. Claro fica na estrutura da obra que ele bebe nas fontes de Homero e nelas se inspiram para dar forma seu trabalho, além da lírica medieval e de Dante Alighieri, presente nas abordagens dos vários círculos. Reafirma o ideal defendido do Renascimento: o homem como centro do universo. O humano não como fruto do pecado, mas como ser criador e criativo.
A composição para além do que podemos tomar como literário, reflete sem dúvidas, o conhecimento científico da época, ênfase nos descobrimentos e a ovação dos feitos dos portugueses, povo que estaria predestinado a se constituir como o quinto império, suplantando todos os outros anteriores, cujos domínios em muito ultrapassariam os mundos conhecidos de então.
Toda a narrativa, que começa de igual modo na Ilíada e na Odisseia, in media res, gira em torno da empresa de Vasco da Gama de desbravar o caminho das Índias pelo mar para conseguir os contratos das especiarias com os hindus, sofrendo toda sorte de infortúnio, intervenções divinas de aprovação e de perseguição por parte do concílio dos deuses da mitologia romana. É uma leitura difícil, porém fundamental para entendermos o vínculo que essa literatura de gênesis genuinamente portuguesa, um marco da última flor do Lácio – o português – compõe de suam importância na constituição da latinidade, estabelecendo o laço dos portugueses com os Troianos, ovacionados como os verdadeiros heróis na obra do Tebano.
Ligar os portugueses com as raízes latinas, remetem ás obras que constituíram a identidade desses povos como o foram a Ilíada, a odisseia e a Eneida. E assim Os Lusíadas se propõe a ser também o marco instaurador da identidade portuguesa, vinculando-a aos seus ilustres antepassados.


Estrutura externa:
Os Lusíadas é constituído por dez partes, chamadas de cantos na lírica; Cada canto possui um número variável de estrofes (em média, 110). As estâncias são oitavas, tendo portanto oito versos. A rima é cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos (AB AB AB CC). Cada verso é constituído por dez sílabas métricas (decassilábico), na sua maioria heroicas (acentuadas nas sextas e décimas sílabas).
Estrutura interna:
Proposição - introdução, apresentação do assunto e dos heróis. Invocação - o poeta invoca as ninfas do Tejo e pede-lhes a inspiração para escrever;
Dedicatória - o poeta dedica a obra ao rei D. Sebastião.
Narração - a narrativa da viagem, in medias res, partindo do meio da ação para voltar atrás no tempo e explicar o que aconteceu até ao momento na viagem de Vasco de Gama e na história de Portugal, depois prosseguir na linha temporal.
Por fim, há um epílogo a concluir a obra.
Planos temáticos:
 Plano da Viagem - onde se trata da viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia de Vasco da Gama e dos seus marinheiros;
 Plano da História de Portugal - são relatados episódios da história dos portugueses;
 Plano do Poeta - Camões refere-se a si mesmo enquanto poeta admirador do povo e dos heróis portugueses;
 Plano da Mitologia - são descritas as influências e as intervenções dos deuses da mitologia greco-romana na ação dos heróis.

Exposição dos Cantos:

Canto I
 Proposição, Invocação e dedicatória;
 Concílio dos deuses para decidir se os portugueses devem ou não alcançar seu destino;
 A frota de Vasco da Gama chega à Ilha de Moçambique, onde encontram os muçulmanos e enfrentam sua primeira batalha em busca do caminho da Índia;
 Passam por Quíloa e então chegam à Mombaça.

Canto II – Chegada a Melinde
 Os Lusitanos enfrentam mais uma emboscada em Mombaça e Vênus interfere novamente em favor dos portugueses;
 Em seguida, chegam em Melinde, onde são muito bem acolhidos por gente leal e amigável.

Canto III

 Vasco da Gama conta ao rei de Melinde a história de Portugal e os feitos lusitanos, de Luso a Viriato, passa para o rei D. Afonso VI de Leão e Castela, D. Teresa e o conde D. Henrique;
 Conta também a lenda sobre a batalha de Ourique, fala sobre a Dinastia de Borgonha e a história de Inês de Castro.

Canto IV – A batalha de Ourique
 A fabulosa história de amor de Inês de castro e D. Pedro I. “Agora Inês é morta”
 Vasco da Gama prossegue a narrativa da história de Portugal. Fala agora da 2.ª Dinastia, desde a Revolução de 1383-1385, até ao momento, do reinado de D. Manuel I, em que a sua armada parte para a Índia.
 A batalha de Aljubarrota;
 O sonho de Manuel I;
 Partida das Naus;
 Episódio do Velho do Rastelo.
Canto V
 Viagem da armada de Lisboa a Melinde;
 Narrativa da grande aventura marítima, em que os marinheiros observaram maravilhados a costa de África, o Cruzeiro do Sul nos céus desconhecidos do novo hemisfério;
 Fernão Velozo;
 Chegada ao Cabo Das tormentas e o Gigante Adamastor;
 Boas novas, doença e mortes;
 Exaltação do povo português.

Canto VI
 Celebração em Melinde e a pardida da armada;
 Baco pede ajuda a Netuno, que convoca um concílio dos deuses marinhos para impedir que os portugueses alcancem seus objetivos;
 Fernão Velozo conta a história dos Doze da Inglaterra;
 A grande tempestade provocada pelos deuses marinhos;
 A armada avista Calecute e o capitão agradece a mercê divina.

Canto VII - A chegada do Gama a Índia.

 Nesse canto retrata a chegada do Gama ás terras Indus;ç
 Contato com Moçaile, um seguidor de Maomé que tinha conhecimento do Império luso e que lhe oferece hospedagem e serve de interprete;
 Por meio dele se trava a transação entre o Gama e o regente da localidade.

Canto VIII - A tentativa de negociação com o rei Catual e a prisão do Gama.
 Esse canto expõe as conversas do Gama com o regente Catual;
 As referências da origem do povo português com a identidade latina, a imagem dos castelhanos como povo atrasado em relação aos lusos.
 Depois de consultar conselheiros acerca da proposta de amizade dos reis lusos, representados pelo Gama, o rei Catual resolve questionar o Gama, acusando-o de impostor e de não acreditar na empresa do mesmo.
 Manda prender o Gama e ele só consegue ser liberado depois de pagar fiança para o corrupto regente.

Canto IX- O contrato firmado e a jubilosa volta para a Lusitânia.

 Nesse canto os lusos passam por diversos contratempos nas negociações de mercadorias com os Indus pela influência dos sarracenos em impedir que mercadores comprem suas mercadorias, mas somente a dos maometanos e seus produtos trazidos nas naus de Meca.
 Por contratempos atribuídos à justiça divina e a atuação de Moçaile, os navios maometanos não chegam e então o contrato tão esperado pelo Gama é firmado entre os comerciantes lusos e os Indus.
 Jubilando e exultantes, os lusos voltam a sua pátria, a Lusitânia, protegidos por Tétis e a grande ovação ás deidades gregas.
 No encontro dos navegadores, que caçavam na ilha de Vênus no seu retorno, encontram as ninfas que se banhavam nas águas na Ilha dos Amores.
 Nas estrofes seguintes, Camões remonta a origem do Fado e de como esse canto triste foi utilizado para conquistar as ninfas, começando por sua rainha. Elemento de significação identitário da nação portuguesa.
 Os valorosos são exaltados e na ilha de vênus, recebidos e agraciados

Canto X- O banquete de Tétis.
Esse canto fecha a obra exaltando a honra e a coragem dos lusos e a sorte de fortunas que os cercam pela virtude e valor na empreitada. Interessante observar nesse canto a precisa descrição dos planetas e das esferas planetárias, assim como os diferentes cursos dos planetas e no verso 145 ele exprime tristeza, onde detectamos traços autobiográficos do autor fechando a obra.


Referências:CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 9.ed.São Paulo: Cultrix, 1993.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Impressões da Ilíada



A afirmação de que “Toda grande obra de Literatura ou é a Ilíada ou é a Odisseia”, vem justamente ao encontro do conceito aristotélico de mimese. Segundo o filósofo a imitação é natural aos homens, e por imitar, os homens se diferem dos outros seres. E por imitar, adquirimos os primeiros conhecimentos. E pela imitação usufruímos do prazer.
Sendo assim, tanto na Ilíada quando na Odisseia, encontramos uma imensidão de elementos que servem de desconstrução e reconstrução para a própria poesia. A primeira, que como a imitação se aplica aos atos das personagens e estas não podem ser senão boas ou ruins (pois os caracteres dispõem-se quase nestas duas categorias apenas, diferindo só pela prática do vício ou da virtude), daí resulta que as personagens são representadas melhores, piores ou iguais a todos nós.
A apresentação da obra Ilíada contempla nossa curiosidade de maneira satisfatória ao andamento narrativo, dando toda a dimensão da querela das deusas pelo título de mais bela, iniciada pela deusa Éris, a disputa que se processou entre Afrodite, Atena e Hera, cuja grande vencedora – Afrodite – foi outorgada o título de mais linda pelo jovem mortal e pastor Páris, recebendo este como prêmio por conceder a vitória a deusa do amor, a mulher mais linda do mundo de então: Helena. Pela posse dessa mulher que se assemelhava a beleza das deusas, se desencadeou a sequência que se segue a guerra de Tróia e o papel do herói Aquiles no desenvolvimento da trama que já começa in media res, ação já ocorrendo e contínua.
O principal foco dessa obra é a figura e a fúria do herói Aquiles, símbolo da ideia de ícone grego de protetor e defensor. Aquiles era um semideus com características antropomórficas, por esse motivo mais próximo da divindade e capaz de questionar e escolher seu destino, coisa que era negada ao reles mortal. Ao mortal cabe apenas se resignar ao desígnio dos deuses e sem escapatória de fuga contra o destino traçado desde o início de sua vida humana. Dentro da narrativa da Ilíada se destacam homens mortais de alto quilate na ostentação de valores similares como é o caso de Heitor e Ulisses, homens com coragem, valor militar, habilidades, agudeza de espírito, perspicácia e no caso de Ulisses, astúcia individual.
O herói Homérico é o modelo daquilo que deve ser seguido, ideal que arregimenta em si a honra – ou seja, a consideração de seus iguais -, o que é belo e o que é bom. Esses ideais de beleza e de bondade eram de suma importância para o grego, visto que por essas características se podia considerar alguém virtuoso.
A guerra na obra de Homero é o elemento mais importante para gerar o herói, pois no caso dos humanos eles sempre estão controlados pelos deuses. No caso de Aquiles, sua fúria suscita a interferência dos deuses, pois se não o fora, o poder de destruição dele não seria contido, mostrando assim como a origem desses seres faz toda a diferença no tratamento que recebem dos favores divinos. A Ilíada também nos proporciona a oportunidade de ver um herói da envergadura dele, somente por sua origem diferenciada possível, questionar a guerra e a concepção de herói instituída pela escola filosófica grega. Afinal, de que serve tanta energia dispensada nessa disputa envolvendo interesses expansionistas gregos e o resgate da mulher de Menelau, se o fim seria a morte? Ele assim reflete quando se defronta com a escolha de ir para a guerra e morrer nela. Mas a outra possibilidade de ter sua memória eternizada o seduz, o desejo extremo do herói pela perpetuação de sua imagem o consome e ele entra na guerra para fazer a balança pender para os gregos.
No fim de seu destino, Aquiles encontra a morte pela flecha atirada de um mortal, mas guiada pelo deus Apolo, em vingança do sangue derramado de seu protegido, Heitor, assassinado e vilipendiado pelo próprio Aquiles. Ele o fez possuído de fúria profunda pelo assassinato de Pátroclo - amigo pessoal e íntimo - executado por Heitor, num campo de batalha, enganado pelo mesmo, que se disfarçava de Aquiles. Foi preciso Zeus intervir, pois Heitor era admirado pelos deuses, assim como pelos humanos.
Assim, Aquiles entra para a galeria dos heróis gregos como aquele que reproduz comportamentos humanos com os quais nos identificamos. Belíssimo clássico, A Ilíada é aquele objeto de arte feito de palavras, do qual gerações sem fim bebem para compor suas ficções.

terça-feira, 5 de maio de 2015



Aniversário


Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

15/10/1929


Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pg. 379.

Gosto da metáfora da existência, criada por Fernando Pessoa no poema Aniversário. Ele se define como sobrevivente a si próprio, como um fósforo frio... Por não ter atingido ainda tal lucidez advinda de um acúmulo peculiar de primaveras, diria que ainda sou um fósforo quase-frio... Eis aí o problema e a solução.
Há em minh’alma calor na medida em que resisto a ser riscada. Ainda encanta-me a possibilidade de ser fósforo e me oxigena de poder vir a ser riscada e então cumprir minha função existencial pragmaticamente pensada ou NÃO, ou simplesmente continuar a ser um palito de madeira a que colocaram uma peruca fosfórica, sem precisar encarnar sua utilidade. E que beleza reside na pré-coisa! Enxergá-la é sem dúvida o maior bem que me transmitiram os livros: aprender a manter o olhar minimamente ingênuo, minimamente infante, exercer a arte do cuiabano Manoel de Barros de ser criança.
Do contrário, tornar-me-ia fósforo-frio, umidade no corredor de fim de casa, pois assumir meu mundo seria renegar ser eu mesma uma pessoa em eterna mudança como o rio de Heráclito e por fim seguindo a incrível frase de Nietzsche, segundo a qual "Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmo somos desconhecidos."... Não!
Por isso vou ali, conversar com a pessoa do Pessoa, que figura! De um pastor grego pré-socrático a um herege praticante do paganismo, de um poeta moderno a um poeta que é “o eu menos o raciocínio e a afetividade”. Voltei encharcada, é que ao invés de uma prosa, acabei por me banhar de lucidez da qual não há sais de banho no mundo que me recuperem.
Definitivamente, sou minhas leituras. Que sejam de imagens, de sons, de gestos, de silêncio, de movimentos, de representações. O importante é tentar compreender a capacidade humana de produzir o espetáculo da vida.
todas essas linhas encontrar-me-á aqui, com esse encantamento de mundo, com essa vontade de continuar a caminhada no mundo dos livros, das culturas e das linguagens. Minha existência pede que eu respire o oxigênio das paisagens homéricas, coma dos banquetes de Petrônio, ouça sobre os mitos de Ovídio e Hesíodo, assista às peças de Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes, enfim, retorne ao mundo dos estudos clássicos que tanto me encanta. Entre o que se inicia e o que se finaliza, chegamos, como bem lembra Heidegger: “Tarde para os deuses, cedo para os homens”. Não quero jamais obliterar minhas raízes.
Sou essas leituras, sou minhas experiências, sou minhas paixões e meus amores. Talvez seja iniciante nesse assunto, mas sim já vivi sentimentos intensos, aquela vontade de estar perto se longe, e mais perto se perto, como tentei me dedicar na deliciosa aventura de se doar ao outro. Nesse sentido volto a Pessoa, como ele, eu, que tantas vezes tenho sido ridícula, absurda, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Então sou só eu que é vil e errônea nesta terra?
Por isso, como todos, não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada, mas, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. E, segundo Drummond, Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. Que assim seja.
Termino, dessarte, com a sensação de que Confieso que he vivido e com o desejo de que que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer, porque metade de mim é plateia, e a outra metade é canção. E que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também. Quero a cada momento viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Renasça




Renasça



Eu tentei. Eu juro que tentei. Tentei suplantar o desejo de sentar diante desse computador e escrever esse texto, mas fui vencida pelo cansaço, pelos meus demônios interiores. Sei que quando nos falarmos ao telefone daremos voltas e não chegaremos ao cerne da questão, por isso te escrevo.
Te escrevo por que sei que talvez nunca mais nos falaremos, não nos veremos, não nos tocaremos com as ásperas palavras que estabelecem o intenso amor que em tão pouco tempo nos nasceu. Amor não romântico, não compromissado, não confessado, mas verdadeiro. As palavras expressam almas que anseiam viver as pulsões plenas de vida. Vida que a cada ciclo pode vir a terminar, palavras que são mãos invisíveis a sondar corpos que fenecem a cada nova primavera e o detrimento da ânsia por uma maior compreensão de mundo.
As amarras de corda nada se comparam as amarras da vida, da convenção do café frio de nossas manhãs apressadas. As trajetórias do chicote e a dor física vem-nos como alívio de nossa vida negada, nosso anseio de liberdade, nossas dores de alma inconfessáveis.
As mordaças nada se comparam com as da nossa boa educação, dos nossos temores, do nosso medo de errar, de perder a rédea da nossa vida tão bem arrumadinha e mais ou menos, que nos trava os dentes e sufocam nossos gritos emocionais.
Quando entrares naquela sala deseje viver. Viva para me conhecer, para me olhar de cima a baixo e pensar que louco foste em dedicar atenção a essa pessoa tão simplória. Duvidarás do que falaste, escreveste e sentiste. Terá por alucinações esse encontro de almas e rejeitarás de um todo qualquer traço do que poderia ter acontecido, porém não o foi. Deseje viver para fugir. De tudo e de todos e de si mesmo. Ou deseje viver para ser mais sincero e verdadeiro consigo mesmo e com os outros sentindo a fugacidade dessa vida terrena que passa como a neblina.
Viva querido, para me renegar, me rejeitar, me ser indiferente, não aceitando beber as lágrimas que por ti agora derramo. Viva para sorrir, para despertar a dor como a carícia, para preservar o fogo das veias quando liberares o teu prazer pelo desejo de realizar-se independente de com quem estejas. Viva para olhar dentro do abismo e permitir o abismo olhar dentro de ti. Viva para renascer de si mesmo, para negar a pulsão de morte que tão de perto nos rodeia. Viva. Não sobreviva.
A negação de nossa verdadeira natureza nos tornou seres mortos, verdadeiros zumbis perambulando por uma infinita estrada nebulosa de medos. Viva para dizer que isso tudo é bobagem, fruto da minha imaginação e que tudo será sempre como sempre foi. Viva para dizer que nunca me conheceu, nem sabes da minha existência, nem te importas com minhas palavras. Mas viva. Essa é minha marca em Você. Pode deletar, apagar, fingir que não leu. Mas quero que minha voz ecoe dentro de ti. Viva.

Sheila

segunda-feira, 30 de março de 2015

POESIA ESSENCIAL




¿Quiénes son los muertos?

No son los muertos los que en dulce calma
la paz disfrutan de la tumba fría,
muertos son los que tienen muerta el
alma y viven todavía.

No son los muertos, no...los que reciben rayos de luz,
en sus despojos yertos.
Los que mueren con honra son los vivos.
y los que viven sin honra son los muertos.

La vida no es la vida que vivimos,
la vida es el honor, es el recuerdo
Por eso, hay muertos que en el mundo viven
y hombres que viven en el mundo, muertos.


Ricardo Palma.

ADORÁVEL CANALHA





É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: “CANALHA!”
Ser chamado de “canalha” por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura.
Canalha, definitivo, como um estampido, como um tapa.
Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo. Não o canalha canalha, mas o Ca-na-lha, sem repetição. Único.Não o canalha que deixa a mulher; o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido á uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo.
O canalha. Como elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós graduação do “sem vergonha”.Bem diferente do crápula, que não é sensual e define o mal-caratismo indelével, ou do cafajeste, alguém que não serve nem para ser canalha, de índole egoísta e aproveitadora.
Eu me arrepio ao ouvir canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio ou o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronuncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais.
É pelas expressões que se definem a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi. Imagino o cara sentado. Infantil como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial, Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.
Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa. Não ficarei triste se você esquecer meu nome, chame-me de canalha.



REFERÊNCIA: CARPINEJAR, Fabrício. CANALHA! – retrato poético e divertido do homem contemporâneo: crônicas, 6.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013, 320p.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

AFIRMAR A VIDA



Hoje é um dia muito importante na vida de vocês e generosamente resolveram dividir esse dia comigo. Portanto minhas palavras são de agradecimento pela alegria e felicidade que me proporcionaram ao ser escolhido, por vocês, para ser um dos homenageados desse dia tão significativo. Embora considere que o professor ensina não apenas com suas palavras e idéias, mas também com suas atitudes, com seu corpo, com seu gesto (primeira mensagem que deixaria para vocês que serão professores), hoje disporei das palavras para deixar para vocês algumas orientações, uma espécie de filosofia de vida, aprendida em mais de trinta anos de exercício da profissão de Professor e de Historiador. Recebam essas idéias como o presente que posso lhes oferecer nessa ocasião, façam delas motivo de reflexão e de ação na nova vida que se inicia para vocês.
Valorizem a vida, afirmem a vida a cada dia. Não se deixem levar pelo desejo de morte. Numa sociedade onde as celebrações da morte e o morticínio estão por todo lado, desde a religião até a política, digam sim á vida, valorizem a dádiva de estar vivo, a cada momento. Não se deixem fascinar pelos espetáculos em torno da morte, não se deixem seduzir pelo fascínio do mórbido, que nos assalta todos os dias nos programas de rádio, de TV, nos jornais, que enchem as igrejas e templos, que se esparramam pelas páginas da história. Não cultivem a morbidez, ela leva a doença do corpo e do espírito. Não cultuem ídolos, heróis, deuses, personagens mortos, cultuem o vivo, a vida, a saúde. A historiografia não pode ser um discurso de culto aos mortos, mas um discurso de afirmação do que vive, do que continua vivo. Celebrem a pulsão da vida e não a pulsão de morte. Há muitas maneiras de suicidar-se, não faça de seu dia a dia um lento e interminável suicídio.
Amem e celebrem a existência do Outro, ele é o seu limite, mas também a tua possibilidade. Mas não hipoteques tua vida a ninguém, não abras mão da tua liberdade e de tua individualidade por causa de ninguém, Ninguém merece a a tua anulação, a tua subserviência, a tua nadificação em vida. E se alguém te cobra isso, ele merece menos ainda. Esteja ao lado dos outros, como amigos, como companheiros, como ajudantes em uma difícil jornada como é a vida.
O outro é fundamental para que saibas de tua própria existência, para que te enxergues, mas também pode te levar ao esquecimento de ti mesmo. Adotar a justa distância em relação ao Outro, nunca deixar de estar junto, mas estando sempre separado essa é a arte. Cria para ti espaços de segurança e de afastamento, até para que possas olhar o Outro em perspectiva. Toda promiscuidade e toda a mistura pode resultar em sofrimento. É fundamental amar o Outro, amando acima de tudo a ti mesmo. O aluno, o colega é teu Outro, sem o qual não existirias como professor/a.
Celebre, se alegre, respeite, ame seus alunos, mas ensine a eles a arte da boa distância, da respeitosa convivência, da polida e doce amizade. Instituir e respeitar lugares e espaços éticos é fundamental para as relações. Não necessariamente lugares e espaços hierarquicamente organizados, mas distribuídos de modo a conjurar a a confusão e a balbúrdia. A vida social é feita da instituição de limites e fronteiras. Que haja um limite claro entre a tua vida pública e tua vida privada, íntima, por uma questão de respeito aos outros e a ti mesmo. Devemos saber até onde podemos acompanhar alguém e quando devemos deixá-lo á sós ou pelo caminho.
Não se apeguem ao passado, não vivam de passado. Valorizem e afirmem o único tempo que temos: o presente. No discurso historiográfico, o passado é uma construção feita no presente, para o presente, a serviço do presente. Não vivam de nostalgia e de saudades do que se foi. A melancolia saudosista enfraquece o corpo e o espírito. A história não é escrita ou ensinada para mimar o passado, mas para reelaborá-lo, fazer o luto, superá-lo, esquecê-lo. O passado deve ser uma arma do e no presente, repensado, ressignificado, reescrito. Nem museu vive de passado propriamente dito, mas sua de sua reinscrição e reelaboração.Quem vive querendo retornos ao passado se torna um conservador, uma pessoa reativa, reacionária. O historiador não existe para salvar o passado, mas para fazê-lo passar, para retirar seu peso do presente, dos ombros do presente, dos homens do presente. Questão de higiene!
Também não vivam esperando por um futuro, não vivam da espera e da esperança. O futuro se constrói aqui e agora, no presente. O futuro é uma virtualidade do tempo de agora. Se não o fizeres o que tens ou queres agora, o futuro não te prometerá nada, necessariamente, de diferente. Não deixe de viver hoje por causa de uma promessa messiânica ou utópico de futuro. Não abra mão da imanência da vida em nome de uma transcendência duvidosa. Programar futuros é bom, desde que com os pés bem fincados na realidade do presente. Encarar o presente em sua realidade, tal como ele é, sem fugas para trás em busca do passado, ou para frente no sonho de um futuro, é tarefa indispensável, embora muitas vezes difícil.
Ame seu corpo, sua carne, Abandonem séculos de ódio ao corpo professado por filosofias e religiões. O corpo é sua casa, é sua morada, é seu espaço. Ele deve ser cuidado, alimentado, valorizado. Não desvalorizem sua condição carnal em nome de uma alma desencarnada e descarnada. O que chamamos de alma, nosso espírito ou subjetividade é inseparável do corpo, é uma parte dele. O sábio é aquele que trabalha para dar ao seu corpo mais prazer e menos dores. Numa sociedade mórbida onde se valoriza a dor, onde se afirma o absurdo salvífico e purificador da dor, valorizem o prazer, o gozo e o bem estar. Tenha sabedoria para evitar tudo o que pode trazer dor física e subjetiva. Afastar-se do que ou de quem te produz dor, estar próximo do que ou de quem te apraz, eis o desafio.
Lembrem-se do mestre Epicuro, o prazer é o supremo bem. O prazer não é imoral ou amoral, imoral é a dor, é o sofrimento, é a miséria física e mental, é aquele que sente prazer em sentir infringir a dor. Use os prazeres de modo racional e temperante, a justa medida cabe em todas as coisas. Por que a historiografia tem que ser um desfile de dores? Por que não se pode fazer ou ensinar a história dos prazeres, dos gozos, dos frêmitos e frenesis? Que infelicidade masoquista é essa que leva os historiadores a sentir prazer em narrar e ensinar as desgraças do mundo? Se elas existem e delas temos conhecimento é para tentarmos não repeti-las, embora saibamos que a condição trágica do homem não nos deixa muitas ilusões nesse sentido.
Amem a vida, valorizem as coisas terrenas, materiais, aquilo tudo que está á nossa volta. Deixem de viver no mundo platônico das idéias e dos fantasmas. Até mesmo nossos fantasmas e fantasias como mostrou Freud, têm como nascedouro as coisas materiais e concretas desse mundo. Até nossos sonhos são bricolagens de estilhaços de nossa vida, de nossas experiências. Nossas imagens e devaneios têm na experiência o seu nascedouro. Há quem desvalorize a vida terrena para viver pendurado em uma pretensa vida imaterial e etérea perda de tempo e de vida. A natureza, ao qual nós pertencemos como animais que somos, pode ser uma fonte de beleza e de prazer.Sofremos hoje as conseqüências de séculos de hostilidade do homem contra a natureza, da qual queria ser diferente e superior. Estamos como espécie, ameaçados de desaparecimento. Temos hoje, em sala de aula, a enorme responsabilidade de repensar nossa condição destrutiva e autodestrutiva com o cosmos.
Nosso ódio ao animal em nós, que baseou séculos de civilização e que embasou e legitimou a criação de saberes, técnicas, tecnologias visando nossa humanização ás custas do bicho que somos. Técnicas e tecnologias de disciplina, de controle, de produção de si, nos fez ver a natureza como inimiga combater inclusive a natureza em nós. Daí nossa hostilidade á vontade de potencia, como chamara Nietzsche. A civilização gerou infelicidade, ressentimento má consciência porque nos negou enquanto seres de desejo e de vontade.
Valorizem a dimensão crítica da razão, sua capacidade de instaurar a dúvida, de desconstruir mitos, lugares comuns, explicações do senso comum. Usem a aguda arma da ironia para que não adiram a primeira verdade que te é enunciada. Um Historiador, um professor de História é alguém que ensina, acima de tudo, a desconfiança em relação ás verdades cristalizada no tempo e sobre ele. A Historiografia é uma polemologia, como nos diz Michel Onfray, nada mais do que isso. E isso é muito. Ou seja, ela é um saber que visa a polêmica, a dissensão, ao contraditório, a dialética das idéias. Ela visa instaurar a dissonância no coro dos contentes. A História usa o passado para incidir criticamente sobre as certezas do presente, para abri-lo ás possibilidades de leitura e de interpretação. Essa é a sua dimensão política. Fazer ou ensinar História é tomar posição em uma polêmica, inclusive no interior da disciplina. Não é deter verdades definitivas, não é chegar a versão indiscutível do passado, mas é por sempre em discussão qualquer versão ou verdade construída para o que passou.É tomar posição em uma batalha de idéias e alimentar com elas a ação dos homens no presente. Na sala de aula de história, tal como propunha Michelet, você brinca de cruzar o rio da morte, você propõe uma lúdica que se constitui no gesto de brincar de ir ao passado para de lá olhar de como de fora o presente, dando a ele novas perspectivas.
A Historiografia não é o lugar da veiculação e reafirmação de mitos: sejam nacionais, regionais ou locais, políticos, ideológicos, religiosos, mas de sua problematização. A História não constrói monumentos e mausoléus: ela os põe abaixo. Ela não sacraliza: dessacraliza, torna profano, torna coisa desse mundo a todo e qualquer tema ou acontecimento. Nem mesmo deus e o seu culto deixam de ser reduzidos ao que são: invenções humanas no tempo.
Mas por valorizarem a razão, não esqueçam dos sentimentos e das sensações. Nós humanos somos seres e não apenas pensamos o que fazemos, nossas ações, os acontecimentos, mas sentimos o que nos acontece. Grande parte das ações humanas, matéria prima da História, são motivadas não apenas por decisões racionais, mas por sentimentos e emoções. Grande parte da história humana se passa não sob o tacão da consciência , mas flui a partir dos impulsos do inconsciente. Os sentimentos e as paixões têm história e fazem História, tanto quanto as idéias e projetos racionais. Não esqueçam que seus alunos e colegas são movidos não apenas por argumentos lógicos, embora muitos tentarão te convencer disso, mas também por desejos e sentimentos, muitos deles inconscientes e, alguns, inconfessáveis.
Lembrem-se da sabedoria de Hobbes, vivemos numa sociedade onde o homem é o lobo do próprio homem. Não sejam inocentes, o mundo humanos é feito de conflitos, de guerras, de contradições e de disputas. Os homens nunca foram anjos, nem mesmo anjos decaídos. No seu lugar de trabalho não imperará necessariamente a solidariedade e a paz. Os valores cristãos não são seguidos nem por aqueles que nas sacristias e púlpitos os professam, simplesmente por serem impossíveis para homens humanos. Somos seres da inveja e da vontade de poder. Sabedoria máxima é procurar se distanciar, por superioridade, da fúria cotidiana das vaidades. Dar a outra face ao seu colega, nunca! Ele te baterá novamente, mas virar o rosto, se afastar, deixá-lo falando sozinho com sua inveja e o seu ressentimento. Tenhas sempre mais do que fazer do que ficar perdendo tempo alimentando a má consciência do seu colega. Não adoeças travando batalhas, se colocando em situações conflitivas das quais nada de proveitoso para ti poderá advir. A polidez e a distância são armas que podes usar para evitar muitos dissabores. No popular, não dês murros em ponta de faca, você só se machucará. Procura estar com pessoas, cultivar as amizades, entrar nos lugares que te possam, efetivamente, trazer crescimento pessoal e prazer. Sabedoria antiga das mulheres: as vezes uma boa rabissaca nos livra de muito aborrecimento.
Faça da alegria a medida de todas as coisas. Se você chegou aqui e fazer esse curso te foi alegre, estás no caminho certo. Se entrar numa sala de aula te sentes feliz, estás na profissão correta. Se ao terminar de escrever um texto, a sensação é de gozo , um orgasmos intelectual, prometes como historiador. Se tens o maior tesão diante de um documento, se te dá um gostoso comichão a entrada no arquivo, serás feliz na profissão. Mas, se passaste pelo curso como obrigação, para satisfazer alguém e não a ti mesmo, se entrar em uma sala de aula é mortificante, é uma tortura, desejas que a aula logo acabe ou que nem exista, estás na profissão errada. Se pensas em fazer somente o tempo da aula passar, se não tens prazer no preparo da aula, se adotas como método de trabalho o faz de conta, a enrolação, vais fazer outra coisa,tenha coragem de romper com essa rotina e vais ser feliz exercendo outra profissão.
A vida é curta e só temos ela para desperdiçá-la exercendo uma atividade que nos entristece e amofina. Tenha coragem de começar de novo, se esse não for o teu caminho. Faça da alegria a prova dos nove, como dizia Caetano Veloso, fique com aquilo ou com aqueles que te fazem ser alegres.
E sorria, o riso é a maior arma com que a natureza nos dotou junto com a consciência. E, por sermos seres conscientes, por sermos os únicos seres que têm consciência de sua própria morte, o riso se torna fundamental. Chega de alimentar vales de lágrimas. As artes e literatura do Ocidente adoram fazer chorar, adoram um chororô. Chega da cultura da lágrima. Sejam professores e historiadores ridentes para não serem risíveis ou ridículos. Riam de todas as solenidades, as grandiosidades e as grandezas, pois sois historiadores e a História nos ensina, justamente, que não há solenidade que não guarde em si a baixaria, que não há potência ou grandeza que não esteja fadada á queda e ao declínio. A História nos ensina justamente a aceitar o caráter trágico da existência humana, seu caráter finito e temporal. Não há soberba ou soberania que o tempo não venha a corroer. Até mesmo as divindades, os deuses morrem com o tempo, pois nele foram criadas. Os heróis, embora eternos, estão mortos. Ria das imortalidades e das moralidades, elas são terrenas e, portanto, perecíveis.
Sejam professores e historiadores amigos do riso, da graça, da leveza, da dança, Sejam professores bailarinos ( e quem me conhece sabe que quase danço em sala de aula). Sejam historiadores de peso, mas leves no corpo e no espírito. Evitem as obesidades, as adiposidades na carne e na subjetividade. O que mais pode desejar um homem do que flutuar? Pegue leve sempre. As pessoas pesarosas e cheias de pesadume se arrastam pela vida ou arrastam a vida como um fardo. Não carregue fardos, jogue-os à beira da estrada. Nada que pese, que te amarre, que te empurre para baixo, que te paralise merece ser cultivado. Jogue fora o peso morto ou o morto de peso. As pessoas vivem buscando o céu e esquecem de levantar voo. Hoje esse dia , essa cerimônia seja encarada como o inicio do voo de cada um de vocês. Que o curso tenha dado a cada um asas para voar. Não direi que cada um solte as frangas, mas que alce voo. Para isso, tudo o que pesado, carregado deve ser deixado por terra. Que prefiras eriçar as penas á viver penando, que entre a penitência a penalidade e a penalização, prefiras apenas ser feliz. É o que desejo a todos e todas! Espero que essas minhas poucas palavras possam ter valido a pena! Melhor, espero que elas não tenham valido a pena, mas valido a alegria. Beijos a todos e todas.

Durval Muniz de Albuquerque júnior.