segunda-feira, 13 de julho de 2015

Tú que nunca serás...





Sábado fue y capricho el beso dado,
capricho de varón, audaz y fino,
mas fue dulce el capricho masculino
a este mi corazón, lobezno alado.

No es que crea, no creo; si inclinado
sobre mis manos te sentí divino
y me embriagué, comprendo que este vino
no es para mí, mas juego y rueda el dado...

Yo soy esa mujer que vive alerta;
tú, el tremendo varón que se despierta
y es un torrente que se ensancha en río

y más se encrespa mientras corre y poda.
¡Ah, me resisto, mas me tienes toda,
tú, que nunca serás del todo mío!


Alfonsina Stormi.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mote e vida que segue


Sinto que não vou morrer, vou ser expulsa da vida.

Presa num jogo traçado
Vejo embaçada a sequência
Embaralho a existência
Aperto o copas trincado
Um desígnio de cada lado
Com a razão combalida
Traço as cartas da partida
Sabendo quem vai bater
Sinto que não vou morrer
Vou ser expulsa da vida

Num caminho aquartelado
Com a minha aquiescência
Não adianta a sapiência
Agir de um modo pensado
Regra tem um bocado
Delas não vejo saída
Recebo logo a batida
O coração a estremecer
Sinto que não vou morrer
Vou ser expulsa da vida.



E disse a loucura: quem se sentir normal, levante a hipocrisia.
E disse o texto: quem se sentir riscado, que se apague.
E disse o cético: quem quiser crer que vá, eu to fora!
E disse o romântico: a bola furou, mas ainda sei jogar.
E disse o calhorda: em qualquer lugar eu decepciono.
E disse o indeciso: se eu quiser, eu desisto.
E disse o dissimulado: Qualquer coisa, pode me procurar
E disse o puro: o brilho era de pouca qualidade.
E disse o impuro: vá para la putz que los parius.
E disse a Besta: eu não disse que era assim?

Às vezes eu odeio estar certa....

Reflexos


Essa ideologia de pretensa paz, de eterno bem-estar, de vida leve sem conflitos, da diversão a todo o tempo, essa venda da falsa tranqüilidade é mera fuga e manutenção do conservadorismo mascarado que tenta manter o status das pessoas estanques como que congelados no tempo.
Não há enfrentamentos, não há embates, somente aceitação hipócrita. Só há fugas covardes. Só há o enraizamento na matrix, só há apego ás raízes platônicas. NÃO. Fujo desse estado inerte. Lutas me fortalecem, não há espaço em mim para covardia. Ninguém é 100% feliz, muito menos feliz o tempo todo. Eu gosto é das coisas extensas e em constante evolução.

Azeite-se,
aceite-se,
destile-se.
Estando ardendo,
refresque-se.
Engula se
quiser,
não querendo
exima se
de apontes
vis...

Como dizia minha avó "é muita cacimba engolindo corda!"

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Série de Mangás favoritos: Berserk


Berserk é um dos mais antigos mangás ativos da atualidade, deu origem a uma série para a TV e três OVAS (filmes em 2012). Iniciado em 1989, esse clássico tem conquistado gerações de leitores no mundo todo e sou uma das que acompanho essa primorosa obra. Grandioso, espetacular, enredo fascinante, são alguns dos adjetivos que posso elencar a essa obra. Uma história que mescla elementos das narrativas clássicas do ocidente, mitologia antiga, contexto histórico da Inglaterra medieval, com personagens bem construídos e pitadas de horror e sobrenatural dignos de um Lovecraft.

Personagens Marcantes:

Griffith:


O líder do bando do Falcão (sendo o falcão seu símbolo, sua bandeira). Griffith como seu próprio nome diz é um enigma na história. Não há referencial a família, sem passado, as memórias dele se iniciam na infância quando recebe um pingente de uma velha cigana que encontra nas ruas. Esse pingente é o ovo do rei supremo, um Behelit escarlate, um artefato misterioso capaz de invocar a “mão de deus” e que predestina aos que o possui a serem grandes reis e terem a opção de serem “anjos” ou “demônios”.
O sonho de Griffith é ter seu próprio reino. O personagem é um misto do Rei Arthur Pendragon (como líder carismático e guerreiro), Dorian Gray (andrógino, belo, gentil e cativante – fica implícita em várias passagens a sua bissexualidade) e ideologicamente inspirado na obra O Príncipe de Maquiavel. Perspicaz e estrategista de primeira, ele se destaca por essas características e a partir de um pequeno bando de mercenários, montou um exército poderoso e que vende seus serviços para a realeza.
Para se tornar um príncipe demoníaco e comandar as forças sobrenaturais e instaurar seu reino, Griffith “sacrifica” todos aqueles que depositaram em suas mãos suas vidas e lealdade. Os que não foram mortos receberam a marca da maldição, que faz com que os que a possuem sejam perseguidos para todo o sempre por espíritos malignos que almejam devorar suas almas e possuir seus corpos. Personagem dúbio, o mesmo que salva Caska (personagem feminina e vértice do triângulo amoroso entre Guts e ele) e evita seu estupro, é o mesmo que transformado em FEMTO – o de asas negras -, a viola e descarta perante os olhos de Guts como forma de humilhar e feri-lo por amá-la. Traiu a tudo e a todos, mas não traiu a si mesmo e nem ao propósito que se propôs, encerrando em si a eterna contradição humana de ser bom e praticando a maldade, agindo com maldade e beneficiando a muitos.
Palavras do próprio personagem que o definem na obra.
“Lutar e morrer por amor e honra são os maiores desejos de um cavaleiro. Mas para os homens há algo mais importante, algo de sua própria vontade e de mais ninguém: Um sonho. Algo que todos os homens possuem independente de origem ou posses. Pessoas perseguem sonhos, e eles podem sustentar suas vidas, fazê-las sofrer ou lhes dar nova vida e pode até matá-las. E mesmo após abandonarem o sonho, ele continua latente em seus corações. Todos os homens têm um sonho, ao menos uma vez na vida e anseiam tornarem-se mártires do deus que seu sonho se tornou. Continuar vivendo só por ter nascido,eu não suportaria uma vida assim”.
Referindo-se aos seus amigos e comandados:
“Eles são companheiros preciosos com os quais escapei da morte por várias vezes, mas não posso chamá-los de amigos. Amigos não se atêm ao sonho de outro, eles vivem por si mesmos e se alguém se opuser ao sonho deles, eles resistem de coração e alma, mesmo que esse alguém seja eu. Para mim, um amigo é alguém que considero um igual”.
O único homem que fez Griffith sentir o coração bater rápido e pulsante – mesmo depois de ele tornar-se um ser demoníaco -, chorar, vencê-lo num combate, e por tempos fazê-lo desistir do seu sonho foi o Guts. A destemida e fiel guerreira Caska, por mais amor que tivesse não conseguiu e a bela e doce Charlotte, com o qual ele se relaciona para ser sua rainha, tampouco. Sem dúvidas ele é o vilão da história, mas é adorável. Difícil não se deixar seduzir por uma persona tão cativante.


Caska:


A poderosa e destemida Caska foi salva por Griffith ainda na puberdade. Suas lembranças são da tentativa de estupro sofrida e a voz de comando de Griffith ordenando ela tomar a espada e reagir. A menina não tinha razão para lutar, podia ter sido estrangulada e facilmente morrer. Mas ao ver Griffith em sua frente, ele se tornou sua razão de viver, seu sonho. E ele sabia disso. Sempre a tratou como uma pessoa preciosa, como uma irmã talvez. Nunca exigiu favores sexuais, apesar de Caska demonstrar toda sua paixão e ser disposta a fazer qualquer coisa por ele. Ao se dar conta que como mulher ela não o atraia, Caska tornou-se um “homem”, para servir ao bando. Exímia nas artes militares, dona de uma compleição morena e musculosa, ela era admirada e temida pelos homens que a viam como a espada do Griffith. Guts se torna uma pedra na bota da Caska justamente por conseguir atrair a atenção do líder. O ciúme é latente na personagem por ver os dois interagirem tão bem. A raiva dela transborda e por três anos eles não conseguem dialogar mesmo estando no front de guerras. Até que numa batalha, a feminilidade de Caska a torna vulnerável em combate e se não fosse por Guts, certamente ela teria morrido. Febril e menstruada, Caska tem seu corpo exposto e cuidado por Guts e ao se dar conta do que tinha acontecido, ela expõe sua raiva pela sua condição de mulher. E ele por sua vez, desperta para perceber a Mulher que aquela garota era, mesmo sabendo que ela pertencia ao Griffith. No desenrolar da trama ela se entrega ao Guts, mas sua fidelidade e amor estão ligados ao Griffith. Assim, a garota que partilhava o sonho de servir ao líder do bando do falcão, vai ser marcada durante a trajetória da história como um sacrifício, vai ser estuprada por Griffith, vai engravidar e abortar um ser (horrendo) que aparece e desaparece na forma de uma criança, vai perder sua memória, suas habilidades guerreiras, vai ficar vulnerável como uma criança que nem fala, se expressa por guinchos, e vai ser a única razão para Guts continuar vivendo, mesmo ela o odiando. A grande jornada de Caska é para retornar a sua lucidez, roubada por tamanhas tragédias que se abateram sobre ela. Personagem forte e marcante com destino crucial traçado, uma sobrevivente do universo de Berserk.



Guts:




O herói da história, sobrevivente de tragédias similares ás de Caska, ele é um misto de Sir Lancelot, Ulisses da Odisseia e o mito do cavaleiro negro (ele fica conhecido no mundo do enredo como o Espadachim Negro). Guts nasceu de um corpo morto de mulher durante uma incursão militar. A mulher do Gabino – um mercenário itinerante - que não tinha filhos,encontrou o menino no sangue da mãe e apesar do marido afirmar que essa criança era sinal de mau agouro, ela teimou em levar o Guts e não deixá-lo virar comida de chacal. O tempo passou e Guts aprende na tenra infância as artes da espada. Sempre empunhando uma espada maior que sua própria altura, ele se torna um mercenário mirim que dava todo seu lucro para a ambição do Gabino, que após perder a esposa para uma doença que a consumiu lentamente, passa a culpar Guts por todas as coisas ruins que passam a ocorrer na sua existência. Ele “vende” Guts para um companheiro de acampamento por um preço fixo, já que o menino(entre 9 e 10 anos) era virgem e assim, Guts é abusado de forma ultrajante, amordaçado e amarrado, sob o corpo de um verdadeiro monstro, que fala que só está tomando posse daquilo que comprou.
Depois do ocorrido - que deixa dores terríveis na psique de Guts, até o ponto dele lembrar-se desse episódio quando transa pela primeira vez com a Caska, quase a matou lembrando-se do ocorrido-, Ele muda totalmente: mata o seu padrasto e o homem que o violou. O fato de ter sido abusado sexualmente, aumenta seu ódio e desejo de vingança em relação ao Griffith, também mantém sob rédeas restritas seus impulsos sexuais. Desejado por mulheres e até mesmo pela rainha demônio, Guts perambula no limiar entre a lucidez e a loucura, guardando dentro de si uma força sobrenatural em forma de chacal. Perdeu seu braço esquerdo e seu olho direito no dia do banquete do sacrifício, a despeito de todas as expectativas, um humano que luta contra deuses, contra os desígnios de sua morte. Por pertencer ao Griffith, ele e Caska recebem a marca do sacrifício, que o condena a não poder mais dormir durante a noite, mas seu único objetivo é proteger a Caska até ela recuperar sua memória e seu desejo de vingança contra aquele que o traiu enquanto amigo. Ao seu redor, arregimenta-se as forças do bem, consolidados na figura de outros personagens e até de uma pequena bruxa e um elfo que teima em andar com ele, para o curar e aliviar de suas dores.
Guts recebe a Berserk Horme, Uma armadura negra “viva” que consome sua energia vital e sangue em troca do poder para derrotar qualquer hoste sobrenatural. Protegido por Nêmesis, tornou-se do ovacionado capitão do Bando do Falcão em um desconhecido que empunha uma espada maior do que ele mesmo, usa uma prótese mecânica e é cego de um dos olhos, misturado ás multidões de pessoas que fogem dos fronts de guerra. Guts é o mesmo. Bruto, arredio, leal e extremamente corajoso. Sua essência permanece inalterada e sem dúvidas, alcançará patamar superior para poder lutar de igual para igual com o seu opositor. Ao vê-lo depois de anos, Griffith sentiu seu coração inerte e frio, transformado pelo poder sobre humano, pulsar. Excelente figura de herói forjado nos campos de batalhas, nos dilemas mentais humanos, nas tragédias que cercam a vida humana. Vejamos se como Ulisses da Odisseia, ele rejeitará a imortalidade.


Farneze e Sérpico:




Os irmãos Farneze e Sérpico são oriundos de família nobre, ela é herdeira legítima e ele filho bastardo, meio irmão dela por parte de pai. Ele foi salvo por ela na infância e se torna o brinquedo particular da irascível e caprichosa pequena. Uma relação a beira do incesto, em que duas almas perdidas buscam a luz que as liberte das trevas interiores. Ambos se tornam membros do Tribunal do Santo Ofício e membros de um grupo restrito de inquisitores que perseguem e capturam o Espadachim Negro. Farneze ver em Guts a luz que asperge sua densa treva e resolve seguí-lo, independente do seu status e responsabilidade pessoal. Sérpico a segue como seu protetor e guardião. Sérpico é excelente espadachim, só não se iguala a Guts na força. Perigoso, astuto, passa a perceber a mudança íntima de sua irmã no decorrer da jornada. A mimada e voluntariosa Farnezee se torna a protetora e cuidadora de Caska e aprendiz de feiticeira. Guts aceita sua companhia com o intuito de cuidar de Caska, já que ela o odeia e tenta de todos os modos ficar distante dele, colocando-se em perigos inúmeras vezes. O destino dos dois irmãos, que partilham o sangue e a perdição, estão intimamente ligados ao destino do herói da narrativa.


Silke e Isidoro:

A pequena bruxinha responsável pelo controle do "eu" de Guts no uso da Berserk horme, e mestra da magia que prepara a Farneze para ser uma bruxa e Isidoro, o pequeno ladrão que segue Guts na esperança de que ele o ensine as artes da espada. Esses dois são elementos puros e divertidos, responsáveis pela integridade física e psíquica do herói.




Rickert:



O pequeno e corajoso Rickert era membro do antigo bando do Falcão, juntamente com seu irmão mais velho sacrificado no dia do eclipse. O único que não recebeu a marca e ficou responsável por Caska durante dois anos depois do ocorrido. Ele recebeu os corpos quase mortos de Guts e Caska depois do eclipse e se tornou um exímio ferreiro. Adotado por um velho artífice ferreiro e sua neta, Rickert fez um cemitério de espadas para todos os mortos durante o banquete do sacrificio. Mesmo sabendo por Guts o que Griffith fez, esse menino que aos poucos toma a estatura de homem não consegue odiá-lo. Mas se recusa a serví-lo. Deixa bem claro que serve ao Griffith do Bando do Falcão original e não ao Falcão Branco. Humano, fraco, sincero e puro,ele se posiciona diante de Griffith como um homem precoce decidido em fazer o que julga certo e proteger quem ama. E isso ele faz ao lado de Guts. Sua existência é um enigma dentro da história ainda não terminada.


Berserk traz à tona elementos da história universal, da Inglaterra dos Tudor, das relações de poder entre o religioso, o político e os casamentos das casas reais. Mostra cotidianos de pessoas comuns e de pessoas especiais. Trás elementos das obras Sonho de uma noite de verão e Macbeth de Shakespeare, o reino de encanto da magia, de seres fantásticos e sobrenaturais, das bruxas, elfos e seres mitológicos, até os abismos de violências e desejos de vontade e poder que nos faz os únicos seres capazes de percebermos nossa temporalidade. Depois de 26 anos ativo, Berserk ainda tem muito o que desvelar nessa narrativa trágica.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Os Lusíadas


"No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"

Última estrofe do canto I


Nessa obra Os Lusíadas, o poeta e militar Luís de Camões, nascido na península ibérica, mais precisamente em Portugal, engendra a epopeia dos tempos modernos, no século XVI. Claro fica na estrutura da obra que ele bebe nas fontes de Homero e nelas se inspiram para dar forma seu trabalho, além da lírica medieval e de Dante Alighieri, presente nas abordagens dos vários círculos. Reafirma o ideal defendido do Renascimento: o homem como centro do universo. O humano não como fruto do pecado, mas como ser criador e criativo.
A composição para além do que podemos tomar como literário, reflete sem dúvidas, o conhecimento científico da época, ênfase nos descobrimentos e a ovação dos feitos dos portugueses, povo que estaria predestinado a se constituir como o quinto império, suplantando todos os outros anteriores, cujos domínios em muito ultrapassariam os mundos conhecidos de então.
Toda a narrativa, que começa de igual modo na Ilíada e na Odisseia, in media res, gira em torno da empresa de Vasco da Gama de desbravar o caminho das Índias pelo mar para conseguir os contratos das especiarias com os hindus, sofrendo toda sorte de infortúnio, intervenções divinas de aprovação e de perseguição por parte do concílio dos deuses da mitologia romana. É uma leitura difícil, porém fundamental para entendermos o vínculo que essa literatura de gênesis genuinamente portuguesa, um marco da última flor do Lácio – o português – compõe de suam importância na constituição da latinidade, estabelecendo o laço dos portugueses com os Troianos, ovacionados como os verdadeiros heróis na obra do Tebano.
Ligar os portugueses com as raízes latinas, remetem ás obras que constituíram a identidade desses povos como o foram a Ilíada, a odisseia e a Eneida. E assim Os Lusíadas se propõe a ser também o marco instaurador da identidade portuguesa, vinculando-a aos seus ilustres antepassados.


Estrutura externa:
Os Lusíadas é constituído por dez partes, chamadas de cantos na lírica; Cada canto possui um número variável de estrofes (em média, 110). As estâncias são oitavas, tendo portanto oito versos. A rima é cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos (AB AB AB CC). Cada verso é constituído por dez sílabas métricas (decassilábico), na sua maioria heroicas (acentuadas nas sextas e décimas sílabas).
Estrutura interna:
Proposição - introdução, apresentação do assunto e dos heróis. Invocação - o poeta invoca as ninfas do Tejo e pede-lhes a inspiração para escrever;
Dedicatória - o poeta dedica a obra ao rei D. Sebastião.
Narração - a narrativa da viagem, in medias res, partindo do meio da ação para voltar atrás no tempo e explicar o que aconteceu até ao momento na viagem de Vasco de Gama e na história de Portugal, depois prosseguir na linha temporal.
Por fim, há um epílogo a concluir a obra.
Planos temáticos:
 Plano da Viagem - onde se trata da viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia de Vasco da Gama e dos seus marinheiros;
 Plano da História de Portugal - são relatados episódios da história dos portugueses;
 Plano do Poeta - Camões refere-se a si mesmo enquanto poeta admirador do povo e dos heróis portugueses;
 Plano da Mitologia - são descritas as influências e as intervenções dos deuses da mitologia greco-romana na ação dos heróis.

Exposição dos Cantos:

Canto I
 Proposição, Invocação e dedicatória;
 Concílio dos deuses para decidir se os portugueses devem ou não alcançar seu destino;
 A frota de Vasco da Gama chega à Ilha de Moçambique, onde encontram os muçulmanos e enfrentam sua primeira batalha em busca do caminho da Índia;
 Passam por Quíloa e então chegam à Mombaça.

Canto II – Chegada a Melinde
 Os Lusitanos enfrentam mais uma emboscada em Mombaça e Vênus interfere novamente em favor dos portugueses;
 Em seguida, chegam em Melinde, onde são muito bem acolhidos por gente leal e amigável.

Canto III

 Vasco da Gama conta ao rei de Melinde a história de Portugal e os feitos lusitanos, de Luso a Viriato, passa para o rei D. Afonso VI de Leão e Castela, D. Teresa e o conde D. Henrique;
 Conta também a lenda sobre a batalha de Ourique, fala sobre a Dinastia de Borgonha e a história de Inês de Castro.

Canto IV – A batalha de Ourique
 A fabulosa história de amor de Inês de castro e D. Pedro I. “Agora Inês é morta”
 Vasco da Gama prossegue a narrativa da história de Portugal. Fala agora da 2.ª Dinastia, desde a Revolução de 1383-1385, até ao momento, do reinado de D. Manuel I, em que a sua armada parte para a Índia.
 A batalha de Aljubarrota;
 O sonho de Manuel I;
 Partida das Naus;
 Episódio do Velho do Rastelo.
Canto V
 Viagem da armada de Lisboa a Melinde;
 Narrativa da grande aventura marítima, em que os marinheiros observaram maravilhados a costa de África, o Cruzeiro do Sul nos céus desconhecidos do novo hemisfério;
 Fernão Velozo;
 Chegada ao Cabo Das tormentas e o Gigante Adamastor;
 Boas novas, doença e mortes;
 Exaltação do povo português.

Canto VI
 Celebração em Melinde e a pardida da armada;
 Baco pede ajuda a Netuno, que convoca um concílio dos deuses marinhos para impedir que os portugueses alcancem seus objetivos;
 Fernão Velozo conta a história dos Doze da Inglaterra;
 A grande tempestade provocada pelos deuses marinhos;
 A armada avista Calecute e o capitão agradece a mercê divina.

Canto VII - A chegada do Gama a Índia.

 Nesse canto retrata a chegada do Gama ás terras Indus;ç
 Contato com Moçaile, um seguidor de Maomé que tinha conhecimento do Império luso e que lhe oferece hospedagem e serve de interprete;
 Por meio dele se trava a transação entre o Gama e o regente da localidade.

Canto VIII - A tentativa de negociação com o rei Catual e a prisão do Gama.
 Esse canto expõe as conversas do Gama com o regente Catual;
 As referências da origem do povo português com a identidade latina, a imagem dos castelhanos como povo atrasado em relação aos lusos.
 Depois de consultar conselheiros acerca da proposta de amizade dos reis lusos, representados pelo Gama, o rei Catual resolve questionar o Gama, acusando-o de impostor e de não acreditar na empresa do mesmo.
 Manda prender o Gama e ele só consegue ser liberado depois de pagar fiança para o corrupto regente.

Canto IX- O contrato firmado e a jubilosa volta para a Lusitânia.

 Nesse canto os lusos passam por diversos contratempos nas negociações de mercadorias com os Indus pela influência dos sarracenos em impedir que mercadores comprem suas mercadorias, mas somente a dos maometanos e seus produtos trazidos nas naus de Meca.
 Por contratempos atribuídos à justiça divina e a atuação de Moçaile, os navios maometanos não chegam e então o contrato tão esperado pelo Gama é firmado entre os comerciantes lusos e os Indus.
 Jubilando e exultantes, os lusos voltam a sua pátria, a Lusitânia, protegidos por Tétis e a grande ovação ás deidades gregas.
 No encontro dos navegadores, que caçavam na ilha de Vênus no seu retorno, encontram as ninfas que se banhavam nas águas na Ilha dos Amores.
 Nas estrofes seguintes, Camões remonta a origem do Fado e de como esse canto triste foi utilizado para conquistar as ninfas, começando por sua rainha. Elemento de significação identitário da nação portuguesa.
 Os valorosos são exaltados e na ilha de vênus, recebidos e agraciados

Canto X- O banquete de Tétis.
Esse canto fecha a obra exaltando a honra e a coragem dos lusos e a sorte de fortunas que os cercam pela virtude e valor na empreitada. Interessante observar nesse canto a precisa descrição dos planetas e das esferas planetárias, assim como os diferentes cursos dos planetas e no verso 145 ele exprime tristeza, onde detectamos traços autobiográficos do autor fechando a obra.


Referências:CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 9.ed.São Paulo: Cultrix, 1993.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Impressões da Ilíada



A afirmação de que “Toda grande obra de Literatura ou é a Ilíada ou é a Odisseia”, vem justamente ao encontro do conceito aristotélico de mimese. Segundo o filósofo a imitação é natural aos homens, e por imitar, os homens se diferem dos outros seres. E por imitar, adquirimos os primeiros conhecimentos. E pela imitação usufruímos do prazer.
Sendo assim, tanto na Ilíada quando na Odisseia, encontramos uma imensidão de elementos que servem de desconstrução e reconstrução para a própria poesia. A primeira, que como a imitação se aplica aos atos das personagens e estas não podem ser senão boas ou ruins (pois os caracteres dispõem-se quase nestas duas categorias apenas, diferindo só pela prática do vício ou da virtude), daí resulta que as personagens são representadas melhores, piores ou iguais a todos nós.
A apresentação da obra Ilíada contempla nossa curiosidade de maneira satisfatória ao andamento narrativo, dando toda a dimensão da querela das deusas pelo título de mais bela, iniciada pela deusa Éris, a disputa que se processou entre Afrodite, Atena e Hera, cuja grande vencedora – Afrodite – foi outorgada o título de mais linda pelo jovem mortal e pastor Páris, recebendo este como prêmio por conceder a vitória a deusa do amor, a mulher mais linda do mundo de então: Helena. Pela posse dessa mulher que se assemelhava a beleza das deusas, se desencadeou a sequência que se segue a guerra de Tróia e o papel do herói Aquiles no desenvolvimento da trama que já começa in media res, ação já ocorrendo e contínua.
O principal foco dessa obra é a figura e a fúria do herói Aquiles, símbolo da ideia de ícone grego de protetor e defensor. Aquiles era um semideus com características antropomórficas, por esse motivo mais próximo da divindade e capaz de questionar e escolher seu destino, coisa que era negada ao reles mortal. Ao mortal cabe apenas se resignar ao desígnio dos deuses e sem escapatória de fuga contra o destino traçado desde o início de sua vida humana. Dentro da narrativa da Ilíada se destacam homens mortais de alto quilate na ostentação de valores similares como é o caso de Heitor e Ulisses, homens com coragem, valor militar, habilidades, agudeza de espírito, perspicácia e no caso de Ulisses, astúcia individual.
O herói Homérico é o modelo daquilo que deve ser seguido, ideal que arregimenta em si a honra – ou seja, a consideração de seus iguais -, o que é belo e o que é bom. Esses ideais de beleza e de bondade eram de suma importância para o grego, visto que por essas características se podia considerar alguém virtuoso.
A guerra na obra de Homero é o elemento mais importante para gerar o herói, pois no caso dos humanos eles sempre estão controlados pelos deuses. No caso de Aquiles, sua fúria suscita a interferência dos deuses, pois se não o fora, o poder de destruição dele não seria contido, mostrando assim como a origem desses seres faz toda a diferença no tratamento que recebem dos favores divinos. A Ilíada também nos proporciona a oportunidade de ver um herói da envergadura dele, somente por sua origem diferenciada possível, questionar a guerra e a concepção de herói instituída pela escola filosófica grega. Afinal, de que serve tanta energia dispensada nessa disputa envolvendo interesses expansionistas gregos e o resgate da mulher de Menelau, se o fim seria a morte? Ele assim reflete quando se defronta com a escolha de ir para a guerra e morrer nela. Mas a outra possibilidade de ter sua memória eternizada o seduz, o desejo extremo do herói pela perpetuação de sua imagem o consome e ele entra na guerra para fazer a balança pender para os gregos.
No fim de seu destino, Aquiles encontra a morte pela flecha atirada de um mortal, mas guiada pelo deus Apolo, em vingança do sangue derramado de seu protegido, Heitor, assassinado e vilipendiado pelo próprio Aquiles. Ele o fez possuído de fúria profunda pelo assassinato de Pátroclo - amigo pessoal e íntimo - executado por Heitor, num campo de batalha, enganado pelo mesmo, que se disfarçava de Aquiles. Foi preciso Zeus intervir, pois Heitor era admirado pelos deuses, assim como pelos humanos.
Assim, Aquiles entra para a galeria dos heróis gregos como aquele que reproduz comportamentos humanos com os quais nos identificamos. Belíssimo clássico, A Ilíada é aquele objeto de arte feito de palavras, do qual gerações sem fim bebem para compor suas ficções.

terça-feira, 5 de maio de 2015



Aniversário


Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

15/10/1929


Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pg. 379.

Gosto da metáfora da existência, criada por Fernando Pessoa no poema Aniversário. Ele se define como sobrevivente a si próprio, como um fósforo frio... Por não ter atingido ainda tal lucidez advinda de um acúmulo peculiar de primaveras, diria que ainda sou um fósforo quase-frio... Eis aí o problema e a solução.
Há em minh’alma calor na medida em que resisto a ser riscada. Ainda encanta-me a possibilidade de ser fósforo e me oxigena de poder vir a ser riscada e então cumprir minha função existencial pragmaticamente pensada ou NÃO, ou simplesmente continuar a ser um palito de madeira a que colocaram uma peruca fosfórica, sem precisar encarnar sua utilidade. E que beleza reside na pré-coisa! Enxergá-la é sem dúvida o maior bem que me transmitiram os livros: aprender a manter o olhar minimamente ingênuo, minimamente infante, exercer a arte do cuiabano Manoel de Barros de ser criança.
Do contrário, tornar-me-ia fósforo-frio, umidade no corredor de fim de casa, pois assumir meu mundo seria renegar ser eu mesma uma pessoa em eterna mudança como o rio de Heráclito e por fim seguindo a incrível frase de Nietzsche, segundo a qual "Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmo somos desconhecidos."... Não!
Por isso vou ali, conversar com a pessoa do Pessoa, que figura! De um pastor grego pré-socrático a um herege praticante do paganismo, de um poeta moderno a um poeta que é “o eu menos o raciocínio e a afetividade”. Voltei encharcada, é que ao invés de uma prosa, acabei por me banhar de lucidez da qual não há sais de banho no mundo que me recuperem.
Definitivamente, sou minhas leituras. Que sejam de imagens, de sons, de gestos, de silêncio, de movimentos, de representações. O importante é tentar compreender a capacidade humana de produzir o espetáculo da vida.
todas essas linhas encontrar-me-á aqui, com esse encantamento de mundo, com essa vontade de continuar a caminhada no mundo dos livros, das culturas e das linguagens. Minha existência pede que eu respire o oxigênio das paisagens homéricas, coma dos banquetes de Petrônio, ouça sobre os mitos de Ovídio e Hesíodo, assista às peças de Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes, enfim, retorne ao mundo dos estudos clássicos que tanto me encanta. Entre o que se inicia e o que se finaliza, chegamos, como bem lembra Heidegger: “Tarde para os deuses, cedo para os homens”. Não quero jamais obliterar minhas raízes.
Sou essas leituras, sou minhas experiências, sou minhas paixões e meus amores. Talvez seja iniciante nesse assunto, mas sim já vivi sentimentos intensos, aquela vontade de estar perto se longe, e mais perto se perto, como tentei me dedicar na deliciosa aventura de se doar ao outro. Nesse sentido volto a Pessoa, como ele, eu, que tantas vezes tenho sido ridícula, absurda, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Então sou só eu que é vil e errônea nesta terra?
Por isso, como todos, não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada, mas, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. E, segundo Drummond, Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. Que assim seja.
Termino, dessarte, com a sensação de que Confieso que he vivido e com o desejo de que que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer, porque metade de mim é plateia, e a outra metade é canção. E que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também. Quero a cada momento viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz!